Reflexões Bíblicas

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM

Mt 13, 44-52
“Vocês compreenderam tudo isso?”

Hoje terminamos a leitura do capítulo treze de Mateus, com as últimas três parábolas do Reino – as do tesouro escondido, da pérola preciosa e da rede lançada ao mar. Nas primeiras duas podemos notar duas ênfases – uma sobre o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e outra sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede no mar ecoa a mensagem da parábola do campo de trigo e joio, que fez parte do texto do domingo passado.
O contexto histórico do tesouro achado é do Oriente Médio Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática comum enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria na violência, e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado por acaso.
Usando este exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude do discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável, que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante notar que o texto enfatiza que “cheio de alegria” ele vende todos os seus bens, para poder possuir o valor maior, que é o Reino. Á vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida é exigente, pois meias-medidas não servem (ele vende tudo o que tem), mas o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria falsa de um programa de Faustão ou Sílvio Santos, mas uma alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois descobrimos a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida – o Reino de Deus. É pena que com tanta freqüência conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo, que afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão insossa e irrelevante!
Novamente, como na parábola do campo de trigo e joio, a última parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas sem indiferença ou comodismo.
O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho que denominamos Mateus era um escriba ou doutro da Lei, convertido ao discipulato de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais dados aos Evangelhos são somente atribuições. Nenhum Evangelho identifica o nome do seu autor, é e consenso entre os exegetas que o Evangelho e Mateus não foi escrito pelo apóstolo daquele nome). Ele está bem enraizado nas “coisas antigas”- ou seja, no Antigo Testamento. Mas está aberto as coisas novas, ou seja, a nova interpretação da Lei que Jesus trouxe. Assim nos ensina algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes de um lado e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e intolerância, do outro. Nem tudo que é antigo é ultrapassado e nem tudo que é novidade é boa. Igualmente, nem tudo que é antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de atualização para os dias de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!

Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM

Mt 13, 13, 24-43
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”

Este texto continua o capítulo treze de Mateus, onde se proclama as parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa quando se faz pão. Termina como uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo de do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a comunidade pequena mateana – e para nós hoje. Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança.
Isso fica claro nas curtas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúsculo, mas, quando brota, forma uma arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperadas.
Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois é movida pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo do escrito, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo (a reestruturação do judaísmo depois da destruição de Jerusalém e do Templo). Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para esta caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje – diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neoliberal, da propaganda do mundo materialista e consumista, da busca desenfreada do prazer, da banalização da sexualidade, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos donos do poder. Isso é julgar somente com critérios humanos. É fácil esquecer a ação do Espírito e da verdade que para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nossos grão de mostarda e a nossa medida de fermento – ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante de quais os governantes se ufanam, quem não sente que é resultado, em grande parte, do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida. Poder-se-ia multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação.
Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar a força o joio, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio. A parábola alerta contra dois perigos, muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo – de criar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto – simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de “deixa correr”, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.
O Reino é de Deus e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar der sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que o nosso grão de mostarda e fermento na massa dão frutos, muito além das expectativas humanas.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (13.07.14)

Mt 13, 1-23
“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”

Com o texto de hoje entramos no capítulo treze de Mateus, que, estruturalmente, é o centro do Evangelho. Tudo se concentra no ponto central da mensagem de Jesus, o Reino de Deus, que continua algo misterioso (v. 11). O capítulo consiste em sete parábolas – as parábolas do Reino – e alguma explicação delas. O trecho de hoje nos traz a parábola que é conhecida como a do semeador (embora o texto enfatize mais a semente), junto com uma explicação do seu sentido.
O que é uma parábola? Um exegeta, C.H. Dodd, deu a seguinte definição: “Uma metáfora tirada da vida diária ou da natureza, que chama a atenção do ouvinte pelas suas imagens vivas ou estranhas, e que deixa-o com dúvida suficiente sobre o seu sentido exata para que seja estimulado a refletir por si mesmo.” A de hoje usa imagens conhecidos na Palestina rural do então – a semeadura – e na sua forma original não trazia explicação. Terminava com o desafio de Jesus para que os ouvintes aprofundassem por si mesmos o seu sentido: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Para entender as imagens é bom lembrar que na Palestina antiga, se jogava a semente antes de arar a terra. Por isso alguma semente caía nas picadas que atravessavam os campos, “a beira do caminho”; outra parte seria logo queimada pelo sol terrível do país; outra parte comida pelas aves, outra parte perdida por que a terra era rala e cheia de ervas daninhas. Mas uma parte iria cair em terra fértil que dava frutos, conforme a sua possibilidade.
Provavelmente, a explicação dada em vv. 18-23 nasceu mais tarde, durante a catequese da Igreja primitiva. Assim, no início podemos supor que o semeador era Deus, Jesus, ou um emissário deles, a semente a Palavra de Deus e os tipos diferentes de solo as respostas diferentes dos ouvintes. Alguns deixam o fascínio do mal, nas suas diversas formas, roubar a semente; outros acolhem a Palavra, mas de uma maneira superficial e não demora muito para que se torna infrutífera nas suas vidas. Outros aceitam a revelação divina mas a coloca em segundo plano, enquanto correm atrás das riquezas de um mundo consumista. Relegando assim Deus e o seu projeto, fazem com que a religião se torne algo de fachada, que em nada ajuda o Reino a crescer. Mas a finalidade da historia é de dar esperança. Embora haja muitos fracassos, em última instância o trabalho do semeador dá certo – sempre há pessoas que recebem com entusiasmo a Palavra, e suas vidas, baseadas na fé viva, dão muitos frutos. Não é necessário que todos dêem frutos iguais – mas que todos dêem conforme as suas possibilidades, cem, sessenta e trinta por um.
Depois de dois mil anos de semeadura, cabe perguntar sobre os frutos da semeadura na nossa sociedade, dita cristã. Depois de mais de quinhentos anos das Igrejas no Brasil, será que nós cristãos damos os frutos de uma sociedade justa, conforme o desejo de Deus? Estamos sendo – individualmente e comunitariamente – que tipo de solo? Deixamos a semente penetrar nos solo dos nossos corações ou deixamos na superfície como a que caiu a beira do caminho? Ou a aceitamos através da catequese sacramental e da tradição familiar, sem aprofundá-la, ficando em uma prática estéril para manter aparências e tradição mas que não afeta em nada a sociedade? Ou deixamos os espinhos modernos – as tentações de uma sociedade materialista, consumista, de competitividade – sufocar as reações de fraternidade e solidariedade que devem marcar os que acolhem a Palavra? Ou, com a graça de Deus, procuramos ser solo fértil, onde a fertilidade inerente na semente possa brotar em frutos de bondade e justiça, conforme as nossas possibilidades, deixando acontecer o que profetizou Segundo-Isaías: “Assim acontece com a minha Palavra que sai da minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei”(Is 55,11). O semeador é Deus, a semente é boa – mas que tipo de solo sou eu, somos nós? “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DECIMO QUARTO DOMINGO COMUM (06.07.14)

Mt 11, 25-30

“Eu te louvo, Pai, … porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”

Os primeiros três versículos do texto não têm uma vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus os coloca, (Lucas situa o ditado num outro contexto – Lc 10, 21-22), e por isso “essas coisas” não se refere ao que veio antes no capítulo (a condenação de Corozaim e Betsaida), mas com os “mistérios do Reino”, que são revelados aos pequenos e humildes – neste contexto, os discípulos, e escondido aos que se acham autosuficientes na sua sabedoria e estudo, ou seja, os fariseus e doutores da Lei (cf. Mt 13, 11). Essa oração de louvor de Jesus brotou da sua própria experiência na missão – enquanto a sua pessoa, ensinamento e projeto de vida foram rejeitados pela elite política, econômica e religiosa da época, os pobres e massacrados pelo sistema o acolheu. A autosuficiência da elite impediu que ela pudesse reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua espiritualidade do Servo de Javé, conseguiram em grande parte alcolhê-lo, mesmo sem compreender inteiramente a profundeza da sua identidade.
O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos Sapienciais, podemos ver reflexos de Pr 8, onde a Sabedoria é personificada, Eclo 51, 1-12, 13-30 e Sab 6-8. Mas também nos faz lembrar textos apocalípticos como Daniel, onde os sábios são incapazes de decifrar o sentido do sonho de Nabucodonosor (Dn , 2, 3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando na revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria ( Dn 2,23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio Deus (Dn 2,44). No tempo de Jesus, os sábios também não conseguem decifrar os mistérios do Reino de Deus, um dom que é dado os humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos (Mt 10,42) a quem são revelados o mistério do Reino dos Céus (Mt 13,11).
Os versículos 26-28 são importantes, pois afirmam o relacionamento único entre Jesus e o seu “Abbá”, seu Querido Pai. Aqui, a comunidade mateana expressa a sua fé em Jesus como Filho Absoluto do Pai Absoluto. É uma de três passagens em Mateus nas quais Jesus expressa, de uma maneira indireta, uma relação única com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21, 37 e 24,36.
A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo Testamento (cf. Jr 2,20; Jr 5,5; Os 10,11). No judaísmo do tempo de Jesus era usada como imagem da Lei de Deus escrita e oral (cf. Eclo 6,24-30; 51, 26s). O termo não tinha necessariamente uma conotação de peso ou opressão quando usado assim. O nosso texto usa a imagem corrente para contrastar a interpretação farisaica da Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas e conceitos que excluíam muitos, e a interpretação de Jesus, que não rejeita a Lei mas lhe devolve o seu sentido original – uma garantia de manter viva na comunidade o projeto libertador de Javé. O problema não estava na Lei mas na sua interpretação. Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes que ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência religiosa um pesadelo para muito. A interpretação de Jesus não é “light” – é exigente, pois exige uma vivência de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação e a rejeição de todo egoísmo e individualismo. No fundo, é mais exigente do que a dos fariseus, pois não se esgota em práticas externas, mas em um processo infinito de doação de si. Garante que este projeto de vida, exigente como é, traz a alegria do Reino de Deus, e Jesus sempre a ensina e aplica com compaixão e misericórdia..
Esses últimos versículos nos levam a rever a nossa pregação, a nossa interpretação da Lei de Deus, a nossa prática pastoral. Pois, ao longo da história, muitas vezes a pregação nas Igrejas e na catequese tem sido uma séria de legalismos moralizantes, reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas, frequentemente colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecido para eles qualquer ajuda para carregá-los. Não poucas vezes o seguimento de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à vivência de uma moral ou ética, sem a revelação do Deus misericordioso e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra que embora a religião exija leis e moral, fundamentalmente é uma mística, uma experiência do amor de Deus que nos convida a assumir o seu jugo como resposta, um jugo que não mata mas que liberta, que não esconde o rosto de Deus mas que traz a alegria do Reino! O Papa Francisco volta a esse tema seguidamente, pois não é fácil a nossa conversão para que “a nossa justiça seja maior do que a dos fariseus e doutores da Lei” (cf. Mt 5,20).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – (29.06.14)

Mt 16, 13-19
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

Hoje a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesareia de Felipe. O relato mais antigo está em Marcos, Cap. 8, 27-38, que se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente; mas, o relato tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo d’Ele.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro Jesus faz uma pergunta aparentemente inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” Assim recebe diversas respostas, pois esta pergunta não compromete, é o “diz que”. Mas a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete com as consequências! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente, Pedro acertou e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura pelo menos até v. 25. Pois, o assunto é mais complicado do que possa parecer.
Após afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que significa ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que, de fato era o Messias, mas não do jeito que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com Ele, até a Cruz! Por isso, Pedro remonstra com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse, e como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Fique atrás de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de Satanás – o Tentador por excelência – e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro tinha os títulos certos para Jesus; mas, a prática errada!
Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática; o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até as últimas consequências.
Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a segunda pergunta de Jesus ressoa forte: para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo ou Pastor, mas para cada de nós pessoalmente? No fundo a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus – Ele que veio para que todos “tivessem a vida e a vida plenamente!” (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada, de cairmos na tentação de substituir o caminho humilde e serviçal da cruz pela pompa e ritual, de esquecermos os valores do Reino de Deus para substituí-los com os valores da sociedade vigente. Pedro aprendeu ao longo da vida o que é ser discípulo, pois terminou crucificado também, mas não foi fácil a mudança de mentalidade. Paulo também teve que despojar-se da toda a sua formação farisaica, quando descobriu que a Lei não salva ninguém, mas somente a graça de Jesus.
Hoje, quando depois de muitos anos de ter desaparecido dos documentos da Igreja, o Espírito tem inspirado os participantes da V Assembleia de CELAM em Aparecida a voltar a esta opção “com renovado vigor,” o Papa Bento XVI insiste nessa opção em Verbum Domini e o Papa Francisco não deixa esquecer que ela opção é pedra de toque para a nossa fidelidade como cristãos, torna-se mais importante do que nunca lembrar o ensinamento de Jesus sobre o discipulado: Ele “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28).

Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (22.06.14)

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (22.06.14)
Mt 10, 26 – 33.
“Não tenham medo!”.

“Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Este tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia! Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza a mesma coisa com tanta ênfase quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade.
Então parece que medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de que? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16-25 Jesus fala das perseguições que os seus discípulos terão que enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela a autoridade religiosa judaica (“acoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das suas próprias famílias (“irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, este cenário já era conhecido no meio das suas comunidades. Pois enquanto nos primeiros anos da Igreja os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, tolerados pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos depois de 85 dC tudo mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan bem Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém, e dar-lhes uma nova identidade. Para isso aparecia-lhes necessário insistir na Lei, na sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados na sua identidade religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam e os judeu-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, ter medo?
Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus! Por isso, não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado.
Hoje, em geral não somos perseguidos por causa da nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada. (Na verdade, há mais cristãos perseguidos no mundo hoje do que nos tempos do Império Romano – outra realidade do que a do Brasil). O mundo nosso até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha conseqüências sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Temos presenciado nisso nas ameaças sofridas por lideres nossos, bispos, padres relifgiosos/as e leigos/as, especialmente no Norte do país. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas aí de quem procura concretiza-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos etc.
Por isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com o seu “corpo” – templos, festas, honras, prédios etc,- mas matando a sua “alma” – a prática da opção evangélica pelos oprimidos. O Brasil também tem os seus mártires – e a lista é comprida – que deram a sua vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários, e elites. É sinal duma igreja viva. Mas não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim soa atual a última advertência do trecho, “quem me renegar diante os homens, eu também renegarei diante do meu Pai”. Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se faz com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (15.06.14)

Jo 3, 16-18
“Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único”

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível – a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, onde se expressa o Pai “criador de todas as coisas”, o Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado”, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no Último Discurso de Jesus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã.
Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Ora, se somos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita na diferença. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivermos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário.
No mundo pós-moderno neoliberal, onde o individualismo social, econômico, e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão.
A festa de hoje não é de um mistério matemático – como pode ter três em um – mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança, até participarmos na eternidade da sua vida.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DOMINGO DE PENTECOSTES (08.06.14)

At 2, 1-11
“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições – a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia – infelizmente ainda muito comum entre nós – leva a gente a um beco sem saída, pois no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão e a Descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa); enquanto Lucas separa os três eventos, em um período de cinquenta dias. Por isso, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores – os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 4).
Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso – mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos: os Onze; as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus; e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração” (At 1, 14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus – o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O dom do Espírito restabelece aqui a unidade de linguagem que se tinha desfeito na Torre de Babel (Gn 11, 1-9) e prefigura assim a dimensão universal da missão dos apóstolos ( cf. nota roda-pé TEB) O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético – de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas – ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos presentes tem um sentido especial – estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. Como dissemos, o texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu!) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica a uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins sxd da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento – é uma experiência contínua – por isso relata novas descidas do Espírito Santo: em uma comunidade em oração em casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.
Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (01.06.14)

Mt 28, 16-20
“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”

Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 17: “Ajoelharam-se diante d’Ele” – uma postura de adoração, de reconhecimento da sua natureza divina. Porém, o trecho nos adverte que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante, quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.
As comunidades que podemos chamar de “mateanas” estavam em crise. Os lideres judaicos de então, diante da fraqueza da identidade judaica da época, insistiam numa interpretação rígida da Lei e não toleravam qualquer dissidência ou questionamento. Iniciaram um processo de expulsão dos judeu-cristãos da sinagoga, sob a acusação de estarem traindo a religião de Moisés para seguir os ensinamentos de Jesus. Com isso os cristãos foram obrigados a buscar outros caminhos, fora do judaismo oficial, numa insegurança que exigia coragem para fazer a nova caminhada diante de tanta oposição até dentro da própria família. O Evangelho de Mateus nasceu, então, para fazer com que a sua comunidade ficasse firme na fé em Jesus e entendesse que o seguimento de Jesus, longe de ser o abandono das tradições religiosas dos seus antepassados, era na verdade fidelidade a toda a caminhada do povo da Aliança. Para isso, toda a história de Jesus foi recontada de uma forma tal que os seus discípulos sentissem que ele era o Messias, o Novo Moisés, o Emanuel, Deus no meio do seu povo. Logo no início, quando o anjo do senhor anuncia o futuro nascimento a José, o texto enfatiza que o filho “será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco”(Mt 1,23). No meio do Evangelho, falando aos discípulos, o próprio Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). Agora, na última frase do Evangelho, o Ressuscitado garante que “Eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Jesus era a presença de Deus conosco desde o início, ele está presente nas comunidades hoje e ele estará sempre conosco em todas as circunstâncias da nossa vida, para sempre.
Depois de um longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina de uma forma muito resumida, neste texto de hoje. É um texto tão denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais coisas em tão poucas palavras. Como gênero literário, reúne elementos das “entronizações” do Antigo Testamento com a comissão apostólica.
Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento em Mateus – na Galiléia. Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos voltam para a Galiléia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado. Aqui “Galiléia” significa mais do que um local geográfico! A Galiléia era lugar da missão de Jesus, onde ele serviu os pobres e marginalizados pela sociedade e pela religião oficial. Voltar para a Galiléia significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém, símbolo da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado deve assumir o seguimento de Jesus na prática das suas opções, aplicadas às condições e desafios da sociedade de hoje. O que significa assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo e exclusão, de materialismo e descrença? Cabe a cada Igreja Local, a cada cristão indagar-se seriamente nesse sentido. O Papa Francisco não cansa de indicar possíveis caminhos práticos.
Embora haja uma referência à visão que os apóstolos tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras. Não há nenhum relato da Ascensão, como existe em Atos (At 1, 9-11) pois, para Mateus, já tinha acontecido junto com a Ressurreição. As últimas palavras de Jesus poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao presente e ao futuro. Jesus declara que toda a autoridade foi dada a Ele no céu e sobre a terra – o verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus a autoridade como Filho do Homem. Essa autoridade é a do Reino de Deus (Dn 7, 14; 2Cr 36, 23; Mt 6, 10). O mandamento missionário se refere ao presente dos discípulos – a sua missão universal e permanente de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus. Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza, e uma Igreja que não a é, está traindo a sua natureza e identidade. Missão não é proselitismo, não é angariar novos adeptos para a Igreja – mas é continuar a missão de Jesus, cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus. Assim, somos chamados a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o Reino de Deus – a vivência da vontade do Pai – se torne realidade no nosso mundo.
Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão. Cinquenta anos depois da Ascensão, a comunidade dele, perseguida e fraca, experimentava a tentação do desânimo. Por isso, Mateus insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porquê desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades. Pois, como dizia Paulo, a partir da sua experiência prática de missionário,quando Deus está conosco, nada estará contra nós. (cf. Rm 8, 11).
A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua comunidade; mas, ao contrário: celebra a sua presença de uma forma nova – na comunidade missionária dos discípulos. Domingo próximo, celebraremos um outro aspecto dessa nova presença, na Festa de Pentecostes.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (25.05.14)

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (25.05.14)

Jo 14, 15-21

“Ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre”

O texto dá início, dentro da primeira parte do Último Discurso de Jesus, à seção trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv.18-22) e ao Pai (vv. 23-24) – o tema de que, se guardarmos os mandamentos, cada personagem divina virá e habitará conosco.
O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade e ao Espírito Santo, especialmente no Último Discurso de Jesus. Neste trecho, se enfatiza a necessidade de guardar os mandamentos, para que possamos receber o dom do Espírito Santo. Aqui encontramos a primeira de duas promessas no capítulo da chegada do Paráclito, uma palavra grega que significava o que seria, em nossa linguagem, o advogado da defesa. Em diversos textos João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. Aqui o Espírito agirá como defensor dos discípulos diante dos ataques do mundo de incredulidade (lembremo-nos que na época do escrito, pelo fim do primeiro século da nossa era, a comunidade joanina estava sofrendo muitos ataques de diversas origens). Vale a pena notar aqui que o Espírito Santo será “outro Paráclito,” pois Jesus já tinha sido defensor dos discípulos durante a sua vida terrestre, e continuará a sê-lo no céu. O Espírito Santo será o Espírito da Verdade, ou seja, o Espírito que revelará ao mundo a verdade sobre Jesus, como Jesus já tinha feito, mostrando-nos a verdade sobre o Pai.
A partir do v. 18, como fez no início do capítulo 14, Jesus volta a consolar os seus discípulos, e a falar da sua volta. Só que aqui não se refere tanto à sua vinda na Parusia, ou a Segunda Vinda, mas uma volta espiritual, através de inhabitação divina em cada discípulo, uma presença real que fará com que os discípulos compreendam que Jesus e o Pai são um. Assim os discípulos conhecerão a relação verdadeira entre Jesus e o Pai, e descobrirão que existe o mesmo relacionamento entre Jesus e eles próprios. De novo põe-se a observância dos mandamentos como precondição para que aconteça essa presença, espiritual, mas real. A observância dos mandamentos não é uma simples exigência legal, mas a demonstração do amor dos discípulos para Jesus.
Atrás desse texto está o desejo do autor de fortalecer a fé da sua comunidade em tempos difíceis. Assim tem muita relevância para a Igreja, a comunidade dos discípulos, hoje. Como então, às vezes a nossa fé poderá vacilar diante de ataques, da perseguição ou até da indiferença do mundo. O texto procura renovar nos leitores a certeza da presença da Trindade no nosso meio – pois o Espírito nos dará força para que vençamos as dificuldades e sofrimentos que eventualmente poderão nos assolar, individual ou comunitariamente. Também insiste na necessidade de criarmos uma comunidade de amor e solidariedade, para que a inhabitação divina em cada pessoa e na comunidade possa tornar-se uma força efetiva no fortalecimento da nossa fé, da nossa caminhada. Lembremo-nos que no Quarto Evangelho o Grande Mandamento era de amar-nos una aos outros, como ele nos amou, ou seja, na doação de nós mesmos na luta de criar um mundo onde se vive o sonho de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e vida em abundância”(Jo 10,10).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br