A afirmação da pessoa humana, imagem de Deus, em tempo de pandemia: desafios e perspectivas

Artigo 033

Vivemos um tempo nunca antes visto na história recente, falo da pandemia do COVID-19, que tem ceifado a vida de milhares de pessoas em todo o mundo. O frei capuchinho, Raniero Cantalamessa, na pregação da sexta-feira da paixão, celebração presidida pelo santo padre, papa Francisco, em Roma, afirmou: “O vírus não conhece fronteiras”.

Essa afirmação coaduna com tantos esforços dispensados pelo mundo e que visam, não apenas o limitado combate ao vírus nos limites preestabelecidos dos seus países, mas o esforço incessante e corajoso de combatê-lo em todo o mundo. Um exemplo concreto desta colaboração mútua entre os países é o da busca por uma vacina que não mais combateria apenas os efeitos, mas o vírus em si, anulando sua cadeia de transmissão em todo mundo.

Erra quem pensa que o combate ao COVID-19 pode ser realizado isoladamente. Não há economia no mundo que possa construir muros capazes de chegar aos céus e os fechar em si mesmos. Quando os babilônicos tentaram construir uma torre, “cuja ápice penetrasse os céus” (Gn 11, 4), Deus os fez “dispersar na terra, confundindo-os em seus desígnios” (v. 6).

Como em Babilônia, existem governos, pseudo-cristãos, que buscam, deliberadamente, e não com poucos esforços, construir muros de separação, também na pandemia. Frases como: “América primeiro”, “Brasil acima de tudo”4 desvelam as intenções pouco democráticas de supervalorização de seu país em despeito de tantos outros que, eventualmente, não comungam com suas ideologias partidárias. O patriotismo é a única máscara que eles usam para encobertar sua falta de alteridade e respeito humano com parte considerável de seu povo que julgam amar. Esquecem-se de que a bandeira estampada e reverenciada por eles é a mesma que tremula em todo país, em todos os seus cantos, mesmo aqueles mais esquecidos.

Posturas como a do presidente do Brasil, quando questionado por repórteres que o alertava para o número crescente de mortes pelo COVID-19, naquela ocasião ultrapassando a marca de 5.000 mortes, disse: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o que? Sou Messias, mas não faço milagres”, compactua com o grave pecado da omissão e da indiferença, geradores de morte. Como em Caim, que ao ser questionado por Deus sobre onde estava seu irmão Abel, a quem acabara de tirar a vida, responde: “Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4, 9).

A resposta de Deus a Caim – “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar por mim” (v. 10) – se apresenta como a verdadeira e definitiva justiça que, diferente da justiça humana, imparcial e fechada em si mesma, cujos olhos estão cobertos pela indiferença e frieza. Como na página evangélica do “bom samaritano” (Lc 10, 25-37) as leis judaícas afastaram o sacerdote e o levita do cuidado daquele moribundo caído à beira da estrada, também hoje a lei humana parece assistir de longe e com os olhos vendados, ouvidos e boca cerrados o clamor de tantos homens e mulheres vitimados por esta epidemia que alcança sobretudo os pobres, vítimas de um sistema corrupto e desigual que privilegia os já privilegiados e oprime, escraviza e mata os que, ainda hoje, continuam à margem nas grandes cidades.

Tais disposições em supervalorizar mais a vida de alguns privilegiados em detrimento de outrem, para além de uma simples e inconsciente questão ideológica, revela uma profunda crise ética, que coisifica e diminui o ser humano em sua dignidade e inviolabilidade. Como evidencia o cardeal Carlo Maria Martini em sua obra “Em que crêem os que não crêem?”:

Daí se depreende o valor da vida humana física na concepção cristã: é a vida de uma pessoa chamada a participar da vida do próprio Deus. Para um cristão o respeito da vida humana desde a primeira individuação não é um sentimento genérico, mas o encontro com uma responsabilidade precisa: a deste vivente

Para ele “o mundo não é dado por uma neutra teoria do Ser, pelos acontecimentos históricos ou fenômenos da natureza, mas pelo existir destes inauditos centros de alteridade, que são os rostos, rostos a serem olhados, respeitados, acariciados” (Ibid. p. 41). Neste sentido, o Cristianismo contribui com a sociedade na medida em que recoloca o ser humano no seu devido lugar, na criação, pois, dotado de memória, inteligência e vontade, como verificou no século IV, santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja, o homem é criado a imagem e semelhança de Deus, chamado a participar responsável e conscientemente do ato criativo de Deus, cultivando a criação.


Leandro Francisco da Silva, SDB

 
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