APÓS O COVID-19 O QUE TEREMOS A DIZER?

Artigo 024

“Hábito e rotina têm um inacreditável poder para desperdiçar e destruir”.
( Henri Cardeal de Lubac).


O século XVII, sempre me fascinou. Meus amigos sabem que sou Pascaliano; Só aceito críticas contra Descartes. Amo de paixão a apologia de Nietzche, as propostas existencialistas de Kieerkegard, o personalismo de Mounier e as novelas de Tolstoi. Tudo isto somado; levou-me na aula inaugural da faculdade Dehoniana em Taubaté a iniciar a minha fala; com esta expressão: “Bem vindos ao século XVII”. O auditório temerosamente sorriu e eu comecei a minha reflexão.

Dentro dos parâmetros filosóficos e teológicos podemos entender que o futuro a Deus pertence; que as coisas que estão por vir só poderão ser prognosticadas ou calculadas a luz de teorias, de erros e de acertos. Blaise Pascal num dos seus pensamentos assim o expressou:

“Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar. Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos”. (PASCAL, B. Pensamentos, 120).

Ninguém pode fugir da ordem estabelecida pelo cosmos ou simplesmente passar por cima da lei natural. Não estamos em condições de fazer o que faziam os gregos; pensar e acreditar num futuro melhor a luz de uma grande catástrofe. De fato os efeitos vitoriosos dos semideuses provinha de grandes desastres que davam como resultado efeitos positivos.  Aquela que mais me a atrai até hoje é a de Zagreu, filho de Zeus e Perséfone. 

Zeus, mulherengo, não perdoava nem a própria filha. Transformou-se em serpente e teve relações com Perséfone, fruto do relacionamento que teve com Deméter. Dessa relação nasceu Zagreu. A intenção de Zeus era que Zagreu se tornasse seu substituto no trono do Olimpo.

Hera não gostou da ideia de ter que deixar seu posto de rainha e pediu que os titãs o matassem.

Zagreu transformou-se em touro e correu, mas os gigantes conseguiram alcançá-lo. Ele foi destroçado e devorado quase por completo, mas Zeus chegou e afastou os titãs com seus raios. Só sobrou o coração do seu pobre filho, ainda batendo.
Zeus apanhou o coração e ofereceu à Sêmele para comê-lo. Com isso ela engravidou e deu à luz a mais um filho de Zeus, Dionísio o deus do vinho.

Catástrofe anunciada; resultado “divino”. Quem não gosta de um bom vinho?

Mas a vida real não é assim. De tudo isto que estamos vivendo não podemos afirmar que virão coisas maravilhosas e deleitosas ou como se diz em diversos ambientes: “dias melhores”. O COVID 19 mexeu com todo e com todos, claro que sim; mas nem todos estão dispostos a mudar. Para muitos a vida que tinham antes da quarentena e depois dela; continua sendo a mesma. 

Seria macabro pensar em que o mundo por inteiro entendeu que podemos viver com menos, que podemos ser mais simples, que as pequenas coisas da vida são aquelas que valem a pena ser vividas. Digo macabro no estrito senso etimológico do termo francês “macabre” aquela dança medieval que inspirava tristeza e evocava a morte. Pensar em que que o mundo deixou de ser consumista por causa da COVID 19; é digo de novo simplesmente macabro. Para muitos o único que interessou durante esta pandemia foi o efeito das bolsas de valores e os produtos financeiros terem caído.
Vale a pena após todos estes fatos, fazermos uma reflexão eclesiológica. Que tipo de igreja nos espera após tantas pandemias juntas. 

Na sua obra “Cronica de una muerte anunciada”, Gabriel Garcia Marques se vale de personagens que na sua simplicidade apresentam o tempo durante o qual a morte já tinha sido muito mais do que anunciada.

Se todos tivéssemos aprofundado na constituição conciliar Lumen Gentium, hoje não teríamos o desconforto que nos causa e nos causou ver as igrejas vazias, os centros de pastoral paralisados e as atividades de todas as dioceses do mundo quase que canceladas. No âmbito eclesial que é o âmbito no qual vivo e existo, vejo com surpresa algumas realidades que não me deixam em paz e que pelo contrário tem - me feito rever a minha postura, louvando a Deus pelos maestros que me fortaleceram no aprofundamento de uma sadia e sólida eclesiologia.

Em dias passados o Papa Francisco na homilia da casa de Santa Marta afirmava: “Esta familiaridade dos cristãos com o Senhor é sempre comunitária. Sim, é íntima, pessoal, mas, em comunidade. Uma familiaridade sem comunidade, sem Pão, sem Igreja, sem povo, sem sacramentos, é perigosa. Pode-se tornar uma familiaridade - digamos - gnóstica, uma familiaridade só para mim, desligada do povo de Deus. A familiaridade dos apóstolos com o Senhor foi sempre comunitária, sempre à mesa, um sinal da comunidade. Sempre com o Sacramento, com o Pão”. (Homilia sexta-feira 17 de abril de 2020, casa de Santa Marta). 

Os meios de comunicação nos tem aproximado uns dos outros em tempos de isolamentos; mas não podemos esquecer que a vida eclesial é COMUNITÁRIA. Que todos nós fazemos parte da grande família de Deus.

Seja como for a igreja em tempos de Pandemia, continua seu caminho e muitos teólogos e teólogas tem realizado magnificas reflexões sobre o assunto. Eu só quero provocar ou melhor atear uma discussão sobre o post COVID 19; a luz de dois grandes pensadores que cada vez me ajudam mais a confrontar a teologia com a cultura. Trata-se Gianni Vattimo e Romano Guardini. Os dois Italianos. Os dois por coincidência distantes e próximos; os dois conjuntamente escreveram obras que me surpreenderam e me surpreendem cada vez mais. Por incrível que pareça em 1956, Guardini escreveu: “O fim do mundo moderno”; e Vattimo em 1985, escreveu: “O fim da Modernidade. Niilismo e Hermenêutica na post - modernidade”. 


Pe. Rafael Solano. Presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. Professor de Teologia Moral e Bioética da PUC -PR. Campus Londrina e Curitiba. PhD. Teologia Moral. 

 
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