AVANÇOS E RETROCESSOS NA VIDA CONSAGRADA APÓS O VATICANO II

Artigo 034

Introdução
Apresento aqui minhas reflexões pessoais sobre os avanços e retrocessos na vivência de nossa vida consagrada. As reflexões vem de experiência de muitos anos de direção espiritual e com a pregação de retiros para ambos masculinas e femininas congregações. Espero que posso levar religiosos/as individualmente e comunitariamente a refletir sobre esse artigo. 

OS AVANÇOS

1 - Um grande e importante avanço foi que nós religiosos/as finalmente colocamos a pessoa de Cristo de novo no centro de nossa vida consagrada. Voltamos para uma vivência essencial e libertadora do Cristo centrismo.   Antes foi a “lei” no centro de muita da vivência de nossa vida consagrada. Oração pessoal e íntima começou de novo a ser uma prioridade. Descobrimos que oração comunitária sozinha não alimenta o ser e vivência de nossa vida consagrada. Descobrimos de novo a oração de intimidade com Deus e, mais importante, descobrimos quanto Deus nos ama. Foi uma aventura de novo no amor de Deus.

2 - Um segundo avanço foi que voltamos a estudar (formação permanente) as origens da vida religiosa como um movimento na Igreja no século quatro. Voltamos a estudar a teologia da Vida Consagrada na Igreja. Voltamos a estudar as raízes de consagração na Igreja que alimentam nossa consagração. Voltamos a descobrir a simplicidade do projeto de consagração, isto é, a promessa de viver a aliança de nosso batismo – amar a Deus de todo nosso coração e nosso próximo. 

3 – Outro avanço que foi algo mais recente foi que aprendemos muito da espiritualidade dos monges e monjas do deserto. Descobrimos a espiritualidade “de baixo para cima” que libertou muitos religiosos/as. Perfeição em tudo não foi mais o fim de nossa vida consagrada. Isto significou que eu poderia assumir minhas imperfeições, limitações e até pecados e permito que Deus entre nessas áreas imperfeitas de minha vida para me consolar e, sobretudo para me curar. Eu finalmente poderia aparecer diante de Deus “imperfeito” sem exigir total perfeição.

4 – Outro avanço foi o mandato do Concílio Vaticano II que todas as Ordens e Congregações deveriam reescrever suas Constituições e Estatutos. Foi um apelo a voltar para as raízes e tradições legitimas da Congregação ou Ordem. Finalmente produzimos livros críticos de nossos fundadores/as onde descobrimos suas virtudes, mas também seus limitações e até fracassos. “Por isso, as constituições, os «diretórios, os livros de costumes, de orações, cerimônias, etc., tudo seja revisto convenientemente e, pondo de lado as prescrições obsoletas, adaptem-se aos documentos deste sagrado Concílio” (Concílio Vaticano II, Perfectae Caritatis, nº 3).

5 – Outro avanço foi o novo conceito e prática do voto de obediência religiosa que, de fato, não foi um conceito novo, mas um que foi esquecido por vários séculos. A norma por séculos foi “O Superior falou, então Deus falou”.  Voltando a buscar o verdadeiro sentido teológico desse voto é que redescobrimos fontes teológicas sepultadas por muito tempo porque nós frisamos por séculos mais a “lei” e não o “espírito” da obediência evangélica. Descobrimos o “novo” sentido de corresponsabilidade na vivencia do voto. Todo religioso precisa participar no conteúdo da decisão dos Superiores. O religioso precisa indicar o que ele/ela pensa sobre o que Deus quer de cada um.  

6 - – Junto com esse avanço de corresponsabilidade na obediência foi a prática agora de consultas prévias do governo provincial ou local com os membros religiosos. Antigamente acontecia que o religioso descobria sua transferência somente pelo correio sem nenhuma consulta prévia. Isso causou, muitas vezes, um sentido de desrespeito se não revolta no religioso. Alguns religiosos carregaram por muito tempo um sentimento forte de raiva sobre essa situação. A transferência ou outros assuntos foram então uma obediência forçada o que não ajudou ninguém a viver sua consagração. Há agora consulta prévia sobre decisões de obediência. O religioso/a é escutado sobre as transferências para discernir juntos qual é a vontade de Deus nessa circunstância. 

 7 – Outro avanço foi a questão de profissionalismo introduzido na vida consagrada e especialmente entre as Congregações e Ordens femininas. O importante foi o sério discernimento sobre se o estudo de um assunto profissionalizante tocasse e ajudasse de uma maneira ou outra a vivência do carisma fundacional da Congregação ou Ordem e a vida comunitária. Agora em muitas congregações temos profissionais que nos ajudam a discernir melhor a vontade de Deus. 

8 – Outro avanço foi o fenômeno da cooperação intercongregacional.  Há sinais fantásticos na Igreja que a cooperação entre congregações foi e é possível. Especialmente em áreas mais pobres sem muitos recursos, algumas congregações mistas forneceram alguns de seus membros para assumir o projeto de trabalhar juntos e vivendo sua fraternidade e carismas diferentes na mesma comunidade religiosa. Quebraram certo tabu que congregações somente poderiam viver e trabalhar com seus próprios coirmãos da mesma Congregação ou Ordem. 

9 – Outro sinal de avanço foi o aumento das vocações para a vida contemplativa seja masculina ou feminina. Muitas Ordens contemplativas registraram um aumento de membros nessa vocação específica na Igreja. Isto certamente foi um passo profético nesse mundo e no continente da América Latina e entre nós religiosos. 

10 – Outro avanço na vida religiosa foi a participação ativa de leigos e leigas nas diversas Congregações e Ordens. Antes do Concílio Vaticano II a vida e a espiritualidade de nossas Congregações e Ordens estavam totalmente fechadas dentro de nossos conventos. O Concílio Vaticano II recomendou que abramos nossos conventos para que leigos pudessem participar em nossas vidas e carismas para que pudéssemos ser mais proféticos. Participar principalmente em nossa espiritualidade congregacional. 

Em breve Publicaremos a segunda Parte. 

Pe. Lourenço Kearns CSs.R.

 
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