II Parte: AVANÇOS E RETROCESSOS NA VIDA CONSAGRADA APÓS O VATICANO II

Artigo 035

RETROCESSOS

1 -  A vida religiosa no mundo inteiro está em crise. Alguns não gostam dessa palavra “crise” e preferem a palavra “fase”. “Estamos passando somente uma fase”. Mas essa palavra “fase” engana e engana muito. É uma crise mesma, que os estudos sérios provam.  A crise aqui se refere à realidade que os religiosos esqueceram de sua identidade na Igreja como foi descrito no documento Lúmen Gentium, no Concílio Vaticano II, no capítulo seis. Somos cristãos consagrados. Isto é nossa identidade. Vários estudos mostram a realidade dessa crise. Das congregações ou ordens fundadas antes de 1800, 76% não existem mais. Das congregações ou ordens fundadas depois de 1800, 64% não existem mais. Esses números são claramente um sinal de crise na vida consagrada. Chegaram até um momento de crise e decidiram não atrair mais vocações. Morreram.
 
2 - Podemos perceber alguns sinais de crise em nossas Congregações e Ordens que certamente agem como retrocessos. O primeiro sinal é ativismo sem freios. Coisas essenciais para manter a fidelidade na consagração são colocados no segundo lugar de importância (oração/retiros/ fraternidade, etc.). Esquecemos do essencial e a raiz de consagração que exigem a vivencia de certas prioridades contidas certamente nas Constituições renovadas. 

3 – Outro recesso foi a aceitação na vida consagrada de certos princípios da secularização. Não há dúvida que a pós-modernidade trouxe muitos benefícios para a vida consagrada, mas houve também a introdução de alguns princípios contra os valores do evangelho que infelizmente infiltraram na vida religiosa. “Num continente onde se manifestam sérias tendências de secularização, também na vida consagrada, os religiosos são chamados a dar testemunho da absoluta primazia de Deus e de seu Reino” (Doc. Aparecida, nº 217).

4 -  Outro sinal de retrocesso é a questão da falta de pertença, de perseverança e de fidelidade para com a Congregação ou Ordem e para com os coirmãos/as. O número de desistências cada ano daqueles/as já em votos perpétuos são alarmantes. Segundo o Cardeal João carregado com a vida religiosa em Roma (Cardeal João indicou numa conferência que em 2018, 3,900 religiosos/as pediram licença para deixar a vida religiosa e mais do que 3,000 no ano passado). O sentido da falta de pertença é um sinal de crise. 

5 - O movimento de refundação começou a esfriar em pouco tempo. Pe. Libânio SJ, numa conferência em São Paulo aos religiosos/as disse até algo mais chocante, isto é, que o movimento de refundação no Brasil foi um fracasso.  Foi um retrocesso no sentido de que quando nós Religiosos/as descobrimos que a refundação exigiu de nós mudanças necessárias no ser e no agir da vida consagrada houve um freio no movimento. Quando descobrimos que precisávamos mudar estruturas já fixas e estabelecidas em nossa vida acomodada para poder voltar a reascender o projeto original dos fundadores/as o movimento parou dramaticamente. Entramos no comodismo que foi uma opção para não ser incomodado e parar de crescer. 

6- “No transcorrer da história da Igreja, a vida religiosa teve sempre, e agora com maior razão,  uma missão pro¬fética... (Doc. Medellín, cap. Xll). Essa palavra “profecia” apareceu tanto nos documentos mais recentes sobre a vida religiosa na América Latina porque possivelmente a profecia da vida consagrada estivesse recentemente em falta. Houve a influência negativa da pós-modernidade cujos princípios entraram na vida consagrada. Parece que assumindo os valores negativos e não evangélicos do mundo moderno nossa profecia religiosa começou a perder sua força na Igreja e no mundo porque faltou a vivência mais visível dessa consagração.

7-Quando os religiosos começaram a reduzir e até de deixar a oração pessoal, começaram igualmente a afastar-se do Mestre Jesus e assim o resultado foi um esfriamento sobre o seguimento radical de Jesus.  O retrocesso veio na forma de não honestamente contemplar mais Jesus o Mestre. Seguir Cristo é ser chamado por Ele (vocação). Os/as Religiosos/as foram convidados a aprender a serem discípulos/as do Mestre. Convidados e aprender a fitar seus olhos com amor no Mestre. Convidados a contemplar seu ser e agir e continuar esse mesmo ser e agir em nossas vidas. Isto exigiu a necessidade para cultivar intimidade e ter um tempo honesto para estar na presença do Mestre na oração de “eu–tu”. Nossas distrações (celulares) tomaram o lugar de Cristo em nossas vidas. No  fim do dia falamos que não tivemos tempo para rezar a oração de contemplação do Mestre. 

8 - Normalmente estudamos o conteúdo das Constituições no tempo de formação inicial, especialmente no Noviciado. O retrocesso veio na forma de esquecermos o conteúdo dessas Constituições como uma inspiração e guia de nossas vidas que devem incentivar nossa fidelidade na consagração e na Congregação. Ao invés de retomar depois da formação inicial, e rezar periodicamente o conteúdo das Constituições individualmente e comunitariamente o livro das Constituições muitas vezes somente acumula a poeira em nossas prateleiras. Tornou-se um livro de referência e certamente não serviu mais como guia de vida em nossos discernimentos. Esquecemos que é um livro que exige constante meditação para ser uma fonte de questionamento e conversão em nossas vidas. 

 9-Outro retrocesso foi sobre a frequência dos sacramentos. O retrocesso foi que depois do Concílio Vaticano II   muitos religiosos/as começaram a diminuir a prática da recepção de certos sacramentos. Até em retiros que preguei para religiosas e religiosas mistos eles decidiram que não precisou da celebração da Eucaristia dentro do horário do retiro. Não foi necessário.  Nem se fala do Sacramento de Reconciliação. Precisamos descobrir a importância desses dois Sacramentos em nossa vida consagrada. 

10 -Outro retrocesso é a falta de formação permanente sobre nossas vidas consagradas. Impressionante como depois do Noviciado, especialmente nas congregações clericais, mas também nas congregações femininas, que os/as Religiosos/as desistem de desenvolver o sentido de sua consagração através de leituras e estudos sobre a consagração religiosa. Não procuram fontes abundantes para buscar essa formação fornecida pela CRB local e nacional.

11- Retrocesso através do sinal da “Anemia Espiritual” – Pe. Palácio, SJ, que reconheceu “o desencanto estampado na vida de tantos/as religiosos/as” afirma hoje que a vida consagrada sofre de “uma inegável anemia espiritual”. (Convergência, julho/agosto, 2018).  A anemia espiritual indica um evidente distanciamento de Deus. Esquecemos que nós nos consagramos para uma Pessoa – Deus. Não para uma Congregação ou Ordem, nem para certo tipo de apostolado ou carisma. Uma Pessoa! E cortar intimidade com essa Pessoa cria anemia espiritual que enfraquece a consagração em todos seus aspectos. 

Conclusão

Devemos dar graças a Deus pelos sinais de avanços na vida consagrada e desenvolve-los através de estudos comunitárias, assembleias e capítulos provinciais.
E diante dos retrocessos precisamos com coragem admitir que possivelmente existam entre nós e que precisamos individualmente e comunitariamente procurar um processo de conversão para que nossa profecia esteja cada vez mais visível na Igreja. 

Pe. Lourenço Kearns CSs.R.
(Toda essa matéria logo vai aparecer em um novo livro meu). 

 
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