O MELHOR LUGAR DO MUNDO É DENTRO DE UM ABRAÇO

Artigo 013

No contexto atual, pode soar um pouco estranha a afirmação de que “o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”. Estamos vivendo um ano muito particular: celebramos os mais importantes mistérios da nossa fé no meio de uma pandemia, e isso, concretamente, significa sofrimento, medo, angústia, distanciamento, morte. Parece uma grande contradição: celebramos os mistérios da presença definitiva de Deus entre nós num contexto de isolamento e distanciamento. Por mais que acreditemos que “o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”, sabemos que não há outro meio de conter essa pandemia se não formos rigorosos quanto ao isolamento e distanciamento físicos, isto é, distantes do “melhor lugar do mundo”. O isolamento e o distanciamento físicos aos quais nos submetemos defendem a vida que queremos continuar vivendo, protegem as pessoas que queremos continuar amando. O “melhor lugar do mundo” passa a ser a distância que separa o hoje do amanhã, com seus abraços suspensos, mas “grávidos” do desejo de proximidade. Nossa humanidade requer proximidade!

O isolamento e o distanciamento físicos provocados pela pandemia que enfrentamos, embora gerem ansiedade, angústia, aflição, não são tão maus quanto parecem ser. Eles são expressão de cuidado e de amor. No entanto essa pandemia pôs às claras tantas outras formas de isolamento e distanciamento que estávamos vivendo, muito mais graves, por serem sinais de ódio, desunião, intolerância, preconceito, discriminação, ritualismo, formalidade. O isolamento e o distanciamento dos outros por esses motivos é que devem nos incomodar, envergonhar e, por isso, desinstalar. Se acreditamos na Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão de Jesus, se acreditamos que somos chamados a viver no Espírito, temos de romper com todas as formas de isolamento e distanciamento que não têm nada que ver com cuidado e amor. Nossa fé implica proximidade!

O contexto atual tem-nos colocado em contato direto com a essência da vida consagrada. De repente, surpreendemo-nos com tanto tempo livre, sem saber o que fazer com ele; encontramo-nos dentro de casa vivendo todos os momentos comunitários, sem desculpas que justifiquem as ausências; vemo-nos como apóstolos desejosos de fazer o bem, sem poder encontrar-nos com o rebanho; damo-nos conta de tantas estruturas vazias, sem saber como dar vida a elas; destituímo-nos de tantos rituais, sem crises de consciência ou de fé; despimo-nos de tantos acessórios, sem perder a paz por isso; colocamo-nos diante de Deus com a sensação de termos passado muito tempo longe da intimidade com Ele. O isolamento e o distanciamento físicos levaram-nos a isso e, nesse sentido, têm sido ocasião privilegiada para que o Espírito do Senhor tome em suas mãos os “vasos de barro” que somos e dê maior consistência a eles, a fim de que a fragilidade que lhes é própria não comprometa o encantamento pelo “tesouro” que contêm.

Precisamos, no entanto, estar atentos para que o isolamento e o distanciamento físicos que vivemos no presente não se transformem em estilo de vida. O risco é de nos habituarmos a uma condição momentânea na qual a pandemia nos colocou e, sem nos darmos conta, assumirmos um estilo de vida individualista, narcisista, autorreferencial, autocontemplativo, indiferente, medíocre. Somos chamados a encontrar formas de nos fazermos qualitativamente presentes em nossa comunidade, apesar de nos termos habituado a viver debaixo do mesmo teto; de nos fazermos próximos das pessoas que amamos, mesmo estando isolados ou distantes temporariamente; de nos fazermos cuidadores de tantas pessoas que nem conhecemos, mas sofrem o isolamento e o distanciamento porque foram postas à margem, jogadas nas ruas, tratadas com desprezo e indiferença, consideradas como sobrantes. Impõe-se neste momento histórico o cuidado das pessoas – de todas elas – como expressão do nosso amor e da nossa fé. 

Os mistérios da encarnação, vida, paixão, morte, ressurreição e ascensão do Filho de Deus deixam claro que a proximidade é o modo concreto de o nosso Deus se fazer presente e atuante entre nós. Ao assumir a nossa humanidade, o Filho de Deus, tendo cumprido a sua missão, coloca-nos para sempre no seio da comunhão de vida e amor da Trindade e confirma, assim, a proximidade como condição para a realização plena da nossa humanidade. Deus encontrou a sua forma de fazer-se próximo de nós para sempre. Inspirados por Ele, somos chamados a encontrar a nossa forma de fazer-nos próximos das pessoas com as quais convivemos, daquelas que amamos e das que mais precisam de ajuda nesse momento. Só assim poderemos, no meio de uma pandemia que assusta, amedronta e mata, continuar descobrindo que é maravilhoso viver, é maravilhoso fazer-se próximo, é maravilhoso ser significativo na vida de alguém.

O poeta tem razão: “o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”. Segundo ele, “tudo que a gente sofre, num abraço se dissolve; tudo que se espera ou sonha, num abraço a gente encontra”. Enquanto não pudermos nos abraçar, criemos os rituais necessários para vivermos a maravilhosa experiência de ser presença mesmo na ausência!

Pe. Ronaldo Zacharias, sdb


Referência à música “Dentro de um abraço”, de Jota Quest.

 
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