PREGUIÇA METAFÍSICA: TRISTEZA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Artigo 019

Todos nós já ouvimos dizer que a preguiça é um dos sete pecados capitais. No século V, o Papa Gregório Magno definiu como sendo sete os principais vícios de conduta. No século XIII, a lista se tornou “oficial” na Igreja Católica com a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.

Santo Tomás ensina que, o termo “capital” deriva do latim caput: cabeça, líder ou fonte, o que quer dizer que os sete vícios capitais são aqueles que dão origem à várias outras faltas graves. O vício capital compromete muitos aspectos da conduta, é uma restrição à autêntica liberdade e um condicionamento para agir mal.

A doutrina dos pecados capitais é fruto, como diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 1866), da “experiência cristã”: “Os vícios podem classificar-se segundo as virtudes a que se opõem ou relacionando-os com os pecados capitais que a experiência cristã distinguiu, na sequência de São João Cassiano e São Gregório Magno. Chamam-se capitais, porque são geradores doutros pecados e doutros vícios. São eles: a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça ou negligência (acídia)”.

Neste artigo, nosso interesse consiste somente em tratar do pecado da “preguiça” ou “acídia” e de como a situação de isolamento que estamos vivendo pode nos levar a esse pecado.

Mas o que é “preguiça” ou “acídia”?

A preguiça foi se destacando como pecado capital, sobretudo na sociedade capitalista e consumista como fruto da revolução industrial, da urbanização e da corrida do tempo. “Quem nunca sentiu preguiça atire a primeira pedra”. Sentimos “preguiça” pela manhã, ao despertar, depois do almoço, na hora de estudar, trabalhar etc. Com certeza todos nós já sentimos uma vontade de não fazer nada, o desejo de dormir ou à indolência. É desse “tipo” de “preguiça” que o Catecismo cita como pecado capital?

Segundo o filósofo Pieper, “o fato de que a preguiça esteja entre os pecados capitais parece que é, por assim dizer, uma confirmação e sanção religiosa da ordem capitalista de trabalho. Ora, essa concepção é não só uma banalização e esvaziamento do conceito primário teológico-moral da acídia, mas até mesmo sua verdadeira inversão”1. Compreendemos “preguiça metafísica” ou “tristeza do mundo”.

O que é acídia?

Neste artigo, vamos seguir o ensinamento de Santo Tomás sobre a acídia na Summa Theologica, II-II, q. 35, e em De Malo, q. 11. Santo Tomás parte da definição de São João Damasceno: “é certa tristeza que causa pesar”. Isso significa que a acídia é uma tristeza que deprime o ânimo do homem de modo que nada lhe agrada, “assim como se tornam frias as coisas pela ação corrosiva do ácido”. “Acídia” vem, portanto, de “ácido”2. A tristeza pelo bem espiritual; a acidez, a queimadura interior do homem que recusa os bens do espírito. E a tristeza não só é já em si mesma um mal, mas fonte de outros males.

Para Santo Tomás, a acídia é o tédio ou tristeza em relação aos bens interiores e aos bens espirituais, como diz Agostinho a propósito do Salmo (104, 18): “Para a sua alma, todo alimento é repugnante”. Como vemos, para Santo Tomás, essa preguiça significa muito mais do que a falta de vontade de um agir ativo.

Segundo Lauand, alguns dos “sintomas” da acídia podem também surgir em casos de mera doença ou alguma situação ocasional, sem alcance moral3. A questão da tristeza adquire uma imensa complexidade: a tristeza pode (ou não) ser pecado, doença, estado de ânimo, atitude existencial ou combinações desses fatores. No entanto, quando Santo Tomás fala da acídia, de suas “filhas” e manifestações, está tratando da dimensão que mais lhe interessa como teólogo: a da tristeza moralmente culpável.

Tomás de Aquino observa que o homem triste não pensa em coisas grandes e belas, mas só em coisas tristes, a menos que por um grande esforço; por isto, a acídia se opõe à esperança e à fortaleza. Existe uma boa tristeza pelos pecados, essa é a contrição; e uma má tristeza diante do bem espiritual: essa é a acídia.

A acídia, como pecado capital, pode levar a uma inação. Se a tristeza da acídia pode levar à inação, leva também a uma inquietude. Em sua dimensão que produz inação, a acídia caracteriza-se pela veemência da tristeza, que imobiliza o homem, retardando a ação, daí que S. João Damasceno afirma ser uma tristeza agravante, pesada, isto é, “paralisadora”. Para comprová-lo, Tomás cita 2Cor. 2, 7: “De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza”.

O isolamento social (quarentena) durante uma pandemia pode levar ao pecado capital da acídia?

As mídias sociais que oferecem “academias” em casa, orientação psicológica on-line, canais de atendimentos etc., aumentaram vertiginosamente durante o período de isolamento social. Declarações de alguns psicólogos revelam o aumento considerável na procura pelas psicoterapias. Percebe-se também aumento acentuado de refúgio nas orações, promessas, etc. Na Missa do dia 17/04/2020 no Vaticano, o Papa Francisco falou do risco de uma fé gnóstica, sem comunidade e contatos humanos reais, vivida unicamente através do streaming que “viraliza” os sacramentos.

O isolamento social pode levar ao aumento da depressão, angústias, inquietações existenciais. O fato é que a tristeza também é uma poderosa força destruidora, convidando a (ou impondo) diversas compulsões: das drogas, ao jogo, do consumismo, vício em trabalho (workaholic) etc.

A necessidade de encontrar novos modos de comportar-se, relacionar consigo mesmo e com os outros pode gerar angústias, inquietações e grande tristeza. Quando, porém, sobrevém um momento de crise, só há duas possibilidades: ou o homem confia e espera, ou cairá no desespero. Para Santo Tomás de Aquino, a raiz do desespero pode ser encontrada na chamada “acídia” ou como costumamos falar na “preguiça”.

A preguiça metafísica

De acordo com São Tomás, essa preguiça metafísica é muito mais do que a falta de vontade de um agir ativo, se identifica com aquela tristeza do mundo que, nas palavras de São Paulo, “produz a morte” (2Cor 7,10). Como questiona o cardeal Ratzinger, de que se trataria, porém, essa misteriosa tristeza do mundo? Para ele, a raiz mais profunda dessa tristeza está na falta de uma grande esperança e na inatingibilidade do grande amor. Torna-se, pois, cada vez mais concreta a verdade de que a tristeza do mundo produz morte 4.

O desespero fruto da acídia pode levar à falta de confiança em Deus, como afirma Ratzinger: “A preguiça metafísica de identificaria, portanto, àquela pseudo-humildade tão frequente nos dias de hoje: o homem não deseja acreditar que Deus se preocupa com ele, que o conhece e ama, que pousa nele seu olhar e lhe é próximo. Essa preguiça metafísica pode conviver com uma grande atividade na “ausência de Deus”. Sua essência é a fuga de Deus, o desejo de estar a sós consigo e com a própria finitude, sem ser importunado pela proximidade divina”5; podendo levar à acídia e ao desespero.

Os desesperados desejam no lugar do dom, da esperança, a justa recompensa e a segurança. Querem, com um duro rigorismo de exercícios religiosos, com orações e ações, garantir o próprio direito à recompensa. Falta-lhes a humildade para receber os dons que vão além de nossos méritos e realizações. Com a tristeza se torna paralisado pela vertigem e pelo medo.

Preferimos as nossas tristezas à alegria da esperança. A alegria divina nos eleva, enquanto nós preferimos permanecer nas nossas preocupações, nas nossas tristezas e nos nossos desesperos. A tristeza leva-nos a ver as coisas na obscuridade do nosso individualismo e medos, e não à luz da Esperança divina. Por isso, um autor cristão do século II escrevia: “Desapega-te de ti mesmo, renuncia à tristeza, porque a tristeza é a mãe da dúvida e do erro”.

Como vencer a tristeza interior?
“Ninguém pode morar na tristeza” (Santo Tomás de Aquino).

Para vencer a acídia, portanto, é necessário resistir, ou seja, pensar nos bens espirituais e, assim, eles se tornam mais prazerosos para nós. E é isso o que se procura fazer na oração. Para superar a acídia não há outro caminho a não ser o de uma oração fiel, perseverante e humilde, que procura considerar os bens divinos.

Para Pieper, se aniquila o desespero (a consciência dele) por meio de uma clarividente magnanimidade – à qual se atribui e confia a grandeza da própria existência – e do bendito ímpeto da esperança na vida eterna.6 “Somente a coragem de reencontrar e aceitar a dimensão divina de nosso ser pode restabelecer em nosso espírito e nossa sociedade uma estabilidade nova e íntima”.7   

O medo deve ser banido mediante aquilo que está ao meu alcance: minha confiança, minha ação, minhas obras. A vida cristã não pode banir do homem todo e qualquer tipo de medo, pois estaria aí em contradição com o que somos. A formação cristã tem o dever de purificar o medo, reconduzi-lo para a direção certa e integrá-lo na esperança para que seja propulsor e proteção. A negação da esperança tem por fundamento a incapacidade de suportar a tensão ante o que há de vir e de se entregar à bondade de Deus.

Assim afirma Ratzinger: “Nos tempos de hoje, que privaram o homem da ânsia pela salvação e pelo pecado e, assim, supostamente o libertaram do medo, essas novas angústias vicejam e assumem, muitas vezes, a forma de psicoses coletivas: o medo do flagelo das grandes doenças que destroem o homem; o medo das consequências de nosso poderio técnico; a angústia do vazio e da falta de sentido da existência… Todas as angústias são máscaras do medo diante da morte, do susto diante da finitude da nossa existência. (…) Quem ama a Deus sabe que só existe uma ameaça real para o homem: o perigo de perder Deus”.8

Coragem de existir

É preciso criar no homem a “coragem de existir”, de aceitar e orientar o seu destino, no sentido do bem e de maneira responsável. É a plena realização humana da esperança que prefigura e prepara o advento da Esperança divina. “Uma Igreja sem coragem de apresentar, inclusive publicamente, o valor de sua visão do homem não seria mais sal da terra, luz do mundo, cidade situada sobre a montanha”.9
A Esperança emerge, antes de tudo, como o dinamismo da vida. Ela é vivida antes de ser conhecida e é conhecida de maneira concreta, antes de ser pensada de maneira abstrata. Nutrir e reforçar a esperança é, antes de mais nada, oferecer bases e condições concretas de viver. Tal é o primeiro princípio que vemos em ação na pedagogia bíblica,
quando vemos o Deus da promessa educar o seu Povo na esperança.

Tudo vai ficar bem!

A esperança brota das profundezas da terra, da vida, do ser humano e cresce para as alturas da Vida plena e eterna.

A primeira forma de presença da esperança é ir aprendendo como “dar certo” na vida, e como dar sentido aos inevitáveis fracassos, dentro do processo de tentativas e erros. A esperança é uma certeza prática, “tudo vai ficar bem”, uma força que ajuda a viver, a superar as crises e a enfrentar os desafios.

A confiança, desse modo, dá sustento à esperança. A esperança é vista como realizável pela confiança. Confiança e esperança se completam e se supõem. É verdade que, no horizonte da esperança, há incertezas e temores, mas é verdade também que, no horizonte da esperança, há o ousar, a aventura, o lançar-se confiante no coração de Deus.

O esperançoso é alguém que confia, que deseja e crê no real ainda não presente, mas que, na fé, é perfeitamente possível. A experiência psicossocial demonstra que o fato de ter uma esperança comum cria unidade entre os que “sonham o mesmo sonho”, e essa unidade reforça, por sua vez, a esperança. Renovar sempre mais as forças da esperança é imprescindível para a superação das atitudes desesperadas e de inativismo.

A esperança é assim: o movimento e a atitude de mobilização afetiva em vista de superar as dificuldades, de tender efetivamente pela ação, à conquista do bem. Pela força da esperança, esse objetivo se torna presente e ativo na vontade; que o busca com tanto mais firmeza quanto mais difícil se mostra.

A Esperança que vem de Deus não aceita o “correr em vão” (1Cor 9, 26). Vai tendendo à felicidade divina e à felicidade humana. Agarra-se à certeza da presença Divina, presente pela força da graça, na existência de cada um e na história da humanidade. Esperar é comemorar.

Necessitamos da junção do “princípio de realidade” e da “confiança”, como que incondicional, na promessa, purificando assim a Esperança, vivendo-a na sua radicalidade cristã. É preciso justificar a esperança que há em nós (1Pd 3,15) e que não decepciona (Rm 5,5).

“A esperança é a última que morre”: é um provérbio orientador, fixado na consciência coletiva do povo. Esperar, para o cristão, nunca foi um acomodar-se. A esperança cristã possui um caráter de confiança em Deus que inclui um desejo e uma tendência em direção ao futuro. Cremos no amor de Deus por nós, que se manifesta na obra de salvação, por meio de Jesus Cristo no Espírito; e, por isso, acreditamos e esperamos.

Padre Mário Marcelo Coelho,scj

Referências:
1 Josef PIEPER.  Virtudes Fundamentales, Madrid, Rialp, 1976, pp. 393-394.
2 Cf. Jean LAUAND. O Pecado Capital da Acídia na Análise de Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm#_ftn8
3 Cf. Jean LAUAND. O Pecado Capital da Acídia na Análise de Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.hottopos.com/videtur28/ljacidia.htm#_ftn8
4 Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.80.
5 Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.81-82.
6 Josef PIEPER.  Amar, esperar, crer, citado por Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.81-82.
7 Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.85.
8 Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.90.
9 Joseph, RATZINGER. Olhar para Cristo: exercícios de fé, esperança e caridade. São Paulo: Quadrante, 2019, p.83.

Dr. Padre Mário Marcelo Coelho, scj - Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. Autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro segundo secretário da Sociedade Brasileira de Teologia Moral. Membro do grupo Interdisciplinar de Peritos (GIP) da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

 
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