QUE ESTRANHO TUDO MUDOU!

Artigo 027

Sim! De repente, quando eu nem esperava, melhor dizendo, quando eu nem sonhava que pudesse passar por algo assim, tudo aconteceu e, para minha surpresa, tudo mudou.

Quando deixei minha casa e fui ao trabalho, parecia tudo tão igual, mas ao retornar, as desgastantes notícias retratavam uma realidade desconhecida, misteriosa, parecia o fim de tudo e aquela dor de sentir que ainda não havia sequer vivido a metade dos meus sonhos, dos mais simples aos mais requintados sonhos de uma vida que agora só podia estar de brincadeira comigo.

De repente, não era mais possível abraçar, tocar, beijar... nem mesmo era permitido aquela roda de amigos para falar umas bobagens, para rir, dividindo o mesmo copo da nossa bebida favorita. Pude perceber que tudo aquilo que era partilhado tinha um sabor mais aguçado do que chamamos felicidade. Exatamente isso: aos poucos pude perceber que eu sentia falta daquela felicidade de estar com aqueles que eu amo tanto e que agora, fazem-me sofrer por tanta saudade.

Não posso crer que seja o fim, mas o começo de uma vida que precisa ser diferente e muito melhor, porque todos nós vamos aprender o que significa um aperto de mão, um abraço bem demorado e um beijo pleno de uma paixão única. A vida pode nos trazer amargas surpresas, mas as que devemos manter vivas no coração, são exatamente aquelas que pensamos ter perdido, e que estão bem à nossa frente.

Isso vale para um pai ou mãe de família, que percebeu uma mudança repentina nas ações de cada dia, mas podemos nos perguntar: “E a nossa vida religiosa, nossa vida fraterna? E a nossa vida de oração, que deve ser o nosso trabalho primordial?”

Para muitas pessoas, esse tempo de “parada” foi um privilégio, porque muitos se deram conta do valor de uma família, dos bons encontros dentro de casa, e, até mesmo do quão pouco se conheciam... Notamos que aos poucos as coisas foram tomando outro rumo e os problemas surgiram com força e gravidade. Mesmo com o caos que estamos vivendo, muitos buscaram realmente uma maior proximidade com Deus. Isso é louvável!

Para nós, consagrados na Igreja, num primeiro momento podemos perceber o quanto estávamos longe e até mesmo perdidos nas muitas atividades de todos os dias. De repente, tudo estava acontecendo de maneira diferente, mas também nós perdemos o hábito de estar com aqueles que Deus escolheu para viver ao nosso lado. Percebemos algumas pessoas estranhas do nosso lado e fomos estranhos para outras também. Mas, fomos impelidos a buscar uma resposta ou ao menos um conforto na nossa vida com Deus. O que deveria ser normal, acabou por se tornar somente algo extraordinário; percebemos que nossas orações eram corridas, porque tínhamos que correr o tempo todo; percebemos que não existia mais diálogo na nossa casa religiosa, porque nossos encontros eram sempre para resolver problemas ou questões quase sempre de desordem religiosa e espiritual. Nós nos afastamos do nosso primeiro amor! Essa verdade pode provocar em nós um certo desconforto, mas foi bem o que aconteceu.

Tivemos a oportunidade de reaprender a ser fraternos para podermos dar passos lado a lado com aqueles que foram chamados para o seguimento de Jesus na mesma vocação. Esse tempo de dor e de sofrimento para tantas pessoas, se tornaram para nós, quase que um “purgatório”, onde descobrimos o caminho que leva ao céu. Nossa vida de oração, nossos encontros fraternos, nosso silêncio diante de Jesus Eucarístico, foram para a nossa alma e para o nosso coração, como que uma medicina, não alternativa, mas bem elaborada pela Igreja ao longo de séculos de história.

Creio que ainda dá tempo de refazer o caminho é sair dessa situação de caos, não do jeito que entramos, mas de modo muito superior. Creio que nós já não somos mais os mesmos, mas acredito que temos agora a possibilidade de rever nossos valores para sermos melhores do que éramos antes.

Deus nos chamou para seguir Jesus Cristo. O chamado foi para seguir uma Pessoa e aprender com a Sua doutrina. Vivemos diversos tipos de inversão de valores, dentro e fora da Igreja, mas cabe a cada um de nós esse crescimento para a edificação de um novo mundo, onde Deus terá “recuperado” o Seu lugar. Deixamos muito a desejar, porque, pelas diversas necessidades dos nossos irmãos mais pobres, esquecemos de levar Deus e o Seu amor na “cesta da caridade” que incansavelmente distribuímos ao longo da nossa vida. Existimos na Igreja para sinalizar a vida futura no hoje da nossa história. Existimos para que as pessoas olhem para nós e se lembrem de Deus e da Sua presença de amor e misericórdia no mundo. Somos chamados a recuperar a nossa vida consagrada sem as diversas ideologias do mundo, que pouco a pouco tirou Deus do centro e se perdeu por diversos caminhos, que provocaram dor e sofrimento... Cabe a cada um de nós essa nova maneira de viver o Evangelho. Jesus não passou por esse mundo distribuindo pães somente. Ele se ofereceu como alimento, mas apresentou o amor do Pai. Ele é o rosto visível de Deus Pai aqui na terra e nós, consagrados, devemos ter a coragem de permitir pela nossa vida, que as pessoas olhem para nós e vejam em nós o rosto de Jesus Cristo.

Para quem tem fé, tudo tem um recomeço. Assim como não existe primavera sem flores, não existe vida religiosa sem o empenho de homens e mulheres que espalham as sementes do Evangelho, através de um vida que floresce, porque está encerrada na árvore enraizadas em Jesus Cristo, nosso Esposo comum. Temos tudo para espalhar a alegria e o encanto de uma Vida Consagrada que encanta e atrai para Deus. Devemos tomar consciência de que Aquele que nos amou primeiro, deseja reacender em nosso coração a chama daquele primeiro Amor, imutável, porque vem de Deus.

Dom Bento de Souza, OSB Abado da Ressurreição \\ Ponta Grossa - PR

 
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