Relação de confiança entre formandos(as) e formadores(as)


Artigo Formação Inicial 001

A transparência na formação é um tema recorrente nas reuniões de formadores e formadoras e nas conversas com os formandos e formandas. Desconheço uma casa de formação que não trate deste tema de forma individual e comunitária. Sabemos que o êxito do processo formativo depende muito da relação de confiança e transparência, vivenciados no dia-a-dia. Com isto, temos aqui diante de nós um grande desafio: fomentar entre os jovens e as jovens em formação sua capacidade de serem transparentes e sinceros com formadores(as), superiores(as) e acompanhantes espirituais; e nos formadores(as) a capacidade de suscitar a confiança dos formandos e formandas.

Iniciamos com uma pergunta: Quais são os maiores desafios que poderiam ser obstáculos para uma partilha verdadeira e em profundidade?

No processo formativo, estudiosos indicam que a confiança, entendida como um valor individual e comunitário, e indispensável na relação com os formadores, é um desafio para todos. Portanto, a transparência que tanto se pede na formação acontecerá dependendo da capacidade de confiança que existe entre as pessoas envolvidas no processo de formação. A transparência com o(a) formador(a) e com formandos e formandas também reflete a maneira como compartilhamos nossa vida em comunidade. A auto revelação requer que haja primeiro uma auto aceitação e um autoconhecimento básicos.
Jesus no Evangelho afirma: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32). A afirmação do Senhor está clara “conhecereis”, ou seja, para se tornar livres é preciso primeiro conhecer a verdade que acontecerá num processo formativo aberto, responsável, transparente e comprometido com esta verdade. “A verdade vos libertará” para servi-Lo melhor. Tornar-se livre diante do Senhor com a verdade sobre nós e nossa vocação é viver o processo formativo maduro, verdadeiro e sincero diante dos irmãos e irmãs de comunidade e diante de Deus.
Quando o(a) jovem se sente realmente vocacionado(a), ou seja, chamado(a) por Deus e quer dar uma resposta sincera, ele(a) não fará uma formação leviana e desonesta. Dar uma resposta sincera ao chamado de Deus é querer ser formado(a) para isto. A sinceridade no processo formativo envolve questões de ordem psicológica, vida em comunidade, experiência de um Deus que me chama e também o meu desejo de me tornar melhor para responder ao chamado com mais força e disposição.
O desejo sincero de uma pessoa de buscar a perfeição da vida religiosa ou sacerdotal consiste em assumir pessoalmente, com reta intenção, o seu processo formativo. Este assumir consiste em deixar-se ser formado(a). Cada pessoa deve se perguntar: qual a minha verdadeira intenção no processo formativo. Quando existe a reta intenção a pessoa se comporta de modo honesto, com boa intenção e retidão de consciência, busca identificar-se com o processo formativo e sobretudo, com a vocação na qual foi chamado(a). Aqui está o fundamento de um processo formativo maduro, sincero, transparente e fraterno. Se não existe a “verdade” não acontecerá a confiança e a abertura e consequentemente teremos uma formação falseada; faltará honestidade no processo.
Uma formação que tem como objetivo a maturidade integral do(a) formando(a) deve atingir o indivíduo em todas as dimensões de sua vida, buscando certo equilíbrio entre elas. O ser humano possui a tendência natural de supervalorizar ou privilegiar determinadas áreas e dimensões de sua vida o que, muitas vezes, incorre na depreciação de outras. Por isto, cabe ao itinerário formativo contemplar todas estas dimensões e que acontecem não só no projeto da comunidade em geral, como também no acompanhamento pessoal.
O valor da sinceridade e da honestidade cobrados na formação e exigido para a autenticidade de vida do futuro religioso, religiosa, presbítero, não pode estar baseado no cumprimento de uma obrigação, ou a partir de um processo formativo do dever ou do temor e do terror, do castigo ou da possibilidade de ser mandado embora do convento ou  seminário, mas deve estar baseado na intenção de formar pessoas livres, maduras, verdadeiras e responsáveis capazes de assumir compromissos que exigem as mesmas condições ou valores.
Se a vivência das exigências do processo formativo, por parte de todos os envolvidos, não passar da obrigatoriedade para a dimensão de acolhimento, compreensão e integração em sua vida, ela não atinge o seu objetivo; a saber, o de conscientizar a pessoa de que esta deve ser a protagonista de sua própria formação como nos afirma a Pastores Dabo Vobis . 
Formadores(as) devem ser pessoas capazes de perceber os conflitos e o não-dito, aquilo que os(as) formandos(as) recalcam, e trabalhar de forma tranquila. Quem está na formação tem que ter, também, maturidade e espiritualidade consistentes e experiência pastoral. A formação precisa trabalhar a ideia de responsabilidade, compromisso, honestidade e coerência também com o testemunho.
Os responsáveis e acompanhantes dos(as) jovens facilitam a transparência quando têm habilidades para a comunicação e um espírito que os convida a crescer integralmente em sua vocação. A transparência é condição sine qua non de uma formação responsável e honesta.
No que se refere à transparência do(a) formando(a), é preciso reconhecer a trama, ou seja, a história da pessoa, seus traumas, conquistas, desejos, ambições, se cresceu em uma família com relações saudáveis ou muito difíceis com as figuras paterna e materna. Para algumas pessoas em formação, uma terapia adequada ajudará a curar as feridas e a viver com mais transparência e liberdade.
Dentro do processo formativo, “a relação educativa exige paciência, gradualidade e reciprocidade estendida no tempo. Não é feita de experiências ocasionais e de gratificações instantâneas. Exige estabilidade, planejamento corajoso, empenho prospectivo. Uma autêntica educação deve responder à necessidade de significado e de felicidade das pessoas. Devemos nos deixar educar a cada dia e em cada contexto ou situação”. 


Dr. Padre Mário Marcelo Coelho, scj – Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. Autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro segundo secretário da Sociedade Brasileira de Teologia Moral. Membro do grupo Interdisciplinar de Peritos (GIP) da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Padre Mário Marcelo Coelho, scj

 
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