RELAÇÕES FRATERNAS E SOLIDÁRIAS POR UMA ECONOMIA HUMANIZADA

Artigo Econômico 001

"Da multidão dos que acreditaram, um só era o sentimento e a maneira de pensar. Ninguém considerava exclusivamente seu os bens que possuía, mas todos compartilhavam tudo entre si. " Atos dos Apóstolos, 4,32


Vivemos um momento único na história da humanidade. É um tempo que exige de nós, a confiança de que o ‘Senhor está conosco, em meio a tempestade’.

Tenhamos coragem de ousar novos passos e de lançar o olhar para além das aparências costumeiras, mesmo que seja nos espaços do cotidiano. O momento sugere atenção ao entorno, olhar cuidadoso e vivências comprometidas e solidárias. O convite vai além e nos coloca a abraçar a cruz dos pobres e da terra ferida e a ter a audácia de acolher, num abraço solidário, as adversidades que este tempo nos desafia a viver. Por mais provocador que seja, é hora de graça, descobrimos coisas pequenas e cotidianas que, no decorrer da vida acelerada, foram se perdendo. O isolamento social e/ou o distanciamento físico, nos possibilita a retomada de aspectos importantes de nossa história e do carisma, nos faz revisitar as origens, rever a organização, experimentar a dinâmica do econômico e reassumir a gestão como parte integradora da nossa consagração.
 
O Documento da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades para a Vida Apostólica “Economia a Serviço do Carisma e da Missão” n. 48 de 2018 dá a baliza quando afirma que “pensar a economia significa estar inserido/a no processo de humanização”. É o humano que leva ao comprometimento de todos os membros à gestão da vida e dos bens para uma Vida Religiosa Consagrada baseada na solidariedade e na partilha criativa. Ainda, acende luzes sinalizando a necessidade de repensar a economia tendo presente competências e capacidades. Trata-se de um processo que atinge a todos/as e a cada um/a, não é tarefa a ser delegada a alguém, mas responsabilidade de cada pessoa. Daí, viver a transparência, a sustentabilidade, o cuidado de irmãos/as fragilizados/as, o zelo pelo patrimônio, a prestação de contas e outras questões afins, é atribuição de todos/as sem exceção. 

Logo, o Papa Francisco, atento a estas questões gerenciais e econômicas, nos leva a refletir sobre o modo que entendemos e vivemos o universo econômico. Seu intuito é fomentar uma economia que humaniza, que está a serviço do bem comum e que seja viável e justa, dando novo equilíbrio e novas formas de organização e gestão. A inquietação do papa não está somente nos recursos materiais, mas numa gestão de governança que reduz as desigualdades e democratiza a economia, otimiza os recursos naturais e evolui para uma economia circular e sustentável. É uma interpelação feita a todos/as nós para que possamos ensaiar passos seguros e ligeiros na vivência de uma economia comprometida com a vida, livre de dependências, de medos e reservas pessoais que legitimam o descompromisso com o todo e colocam em risco avanços proféticos e missionários de cada carisma. 

A complexidade na administração econômica e gerencial é crescente e se faz sentir sobretudo, nas organizações religiosas, congregações e sociedades de vida apostólica porque com facilidade delegamos para alguns/as ou para uma única pessoa a tarefa de cuidar dessas questões e por vezes justificamos que não somos capazes ou que nossa tendência é estar no meio do povo exercendo atividades pastorais. É verdade que alguém exercerá esta função, mas faz-se necessário criar uma mentalidade de planejamento com metodologia capaz de desenvolver estratégias e técnicas de análise competentes e eficazes, colocando todos/as, sem exceção, num processo de formação com práticas gerenciais e administrativas não só priorizando a gestão dos bens, mas a gestão de pessoas e de processos para que possamos participar ativamente da obra da criação e desenvolver relações de cuidado entre nós, com as criaturas e com o criador. Dessa forma, é indispensável redescobrir uma economia de rosto humano onde pensar o carisma e a gestão dos bens não há contradição. Cabe lembrar que a formação na dimensão gerencial, econômica e missionária exige atenção e cuidado, discernimento e acompanhamento de mudanças à luz da opção pelos mais frágeis e empobrecidos, sem perder de vista o carisma e o profetismo. É responsabilidade de cada Congregação ou Instituto de Vida Consagrada, bem como de toda a sociedade pensar uma forma de gerir e administrar de modo humanizado dando visibilidade à processos e procedimentos administrativos geradores de vida e de esperança.

Se afirmamos que vivências missionárias, gestão e economia andam no compasso e acontecem nas diferentes esferas de nossa vida, então podemos assegurar que a formação para essas dimensões deve ser compreendida como meio para crescer na comunhão, na corresponsabilidade e na capacidade de planejar a vida, bem como participar do desenvolvimento coerente e sustentável do grupo que livremente assumimos participar e doar a nossa vida a partir da vocação que nos foi confiada. Ninguém pode considerar-se inútil, a margem ou incapaz, todos/as somos protagonistas de relações humanizadas e fraternas, o Senhor continua multiplicando os pães e peixes (Jo.6,9), cabe a nós a tarefa de compartilhar com quem está mais próximo e estes/as aos seus destinatários. 

Diante do que vimos é salutar que evitemos posturas extremas: de um lado, colocar as questões econômicas, gerenciais e administrativas e de outro lado, atividades pastorais, missão profética, evangelização, carisma, etc. Para Ladislauw Dowbor, professor eco economista da PUC-SP, uma ideia básica é que a economia deve estar a serviço das pessoas e não o contrário.  Há uma busca de novos modelos que ecoem profundamente nosso ser e viver gerando segurança e bem estar de modo que envolvam todas as dimensões da nossa vida. É algo alcançável, é preciso sonhar, acreditar, buscar e lançar-se para além dos conceitos e vivências habituais.

Enfim, conscientes que tudo está interligado, somos desafiados/as a recriar relações mais fraternas e solidárias com desejo de concretizar uma economia humanizada que indicam pessoas integradas e libertas para melhor servir a que fomos chamados/as. Daí os espaços de missão deixam de ser dicotômicos e nos levam à convicção de que ‘eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo’.

Ir. Bernadete Buffon - ICF

 
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