Síntese da disciplina de história da Igreja - Novinter - Junho de 2021

Segundo o Cardeal Bruno Forte em sua obra: Igreja ícone da Trindade, a Igreja é um reflexo da Trindade no mundo. De fato a Santíssima Trindade é uma comunidade de amor. Amor que rege as relações das 3 Pessoas Divinas, o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Assim, a Trindade Santíssima, reflete sua imagem no mundo e nisto temos a Igreja, desta forma a Igreja se faz visível e histórica no mundo, percorrendo o mesmo caminho do Verbo Encarnado que, tornando-se visível e histórico assume a condição humana no ventre da Virgem Maria.

Ainda precisamos ter em conta que na história da Igreja é importante analisar a história da humanidade. Pois no tempo anterior a revelação que se inicia com a criação, a humanidade toma consciência da fé, de fato ainda uma fé natural sem nenhum aspecto revelacional. Portanto, o tempo anterior a revelação, é um tempo de preparação do ser humano que progressivamente se compreende como um ser também espiritual e que pode crer.

Em Abraão temos de forma clara e magnifica a revelação do único e verdadeiro Deus. Abraão e seus seguidores passam a ser monoteístas e iniciam um caminho de libertação crendo no único Deus. Nesta revelação, Deus, em Abraão, reúne um povo, o povo escolhido, e neste momento percebemos a Igreja sendo preparada na história da Povo de Israel.

Esta Igreja preparada no Povo de Israel é plenificada no evento Cristo. Sabemos que o evento Cristo é compreendido desde a encarnação do Verbo Eterno até sua Ascenção ao céu e pode ser entendido também até Pentecostes. O ponto alto desse evento é o mistério Pascal de Cristo, sua Paixão, Morte e Ressurreição. E Neste, de forma objetiva, na Morte de Cristo, nós todos somos salvos. Em Cristo, em sua ação e em suas palavras a Igreja é plenificada e no Colégio Apostólico, tendo São Pedro como líder, a Igreja é instituída.

Pode-se relatar, a partir de tudo isso, que junto a criação e a salvação, a Igreja é uma das grandes obras de Deus. Além de ser reflexo da Trindade, a Igreja se apresenta como uma obra salvífica de Deus a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares.
Tendo sido plenificada em Cristo, a Igreja, tem sua missão manifestada na vinda do Espírito Santo. Podemos afirmar ainda que o Pentecostes é a manifestação da Igreja, uma vez que manifesta sua missão, manifesta a si própria.

Desde o início, ou seja, desde Cristo, o Batismo se apresenta como porta de entrada e de pertença a esta igreja, à medida que o batismo nos insere no Corpo de Cristo, nos faz membro da Igreja que é seu corpo respectivamente. Ao nos fazer membros da Igreja o Batismo ainda nos faz também responsáveis pela missão da Igreja, que é o anuncio da Boa Nova que é o próprio Cristo Senhor e Salvador. A missão da Igreja se compreende ainda em realizar essa Salvação anunciada por meio da administração dos sacramentos.

Após Cristo e Pentecostes, temos como história da Igreja os Atos dos Apóstolos, logo em seguida temos os Padres Apostólicos, ou seja, aqueles homens, que por graça de Deus foram os sucessores diretos daqueles santos homens que Nosso Senhor chamou para a vida em Deus.

O tempo dos Apologetas é a continuidade dos padres apostólicos, é um tempo marcado pelas primeiras heresias que negavam o cristianismo e suas práticas, destacam-se homens doutos que não medem esforços para defenderem a fé, seja por escrito ou oralmente.

Na Igreja antiga não podemos esquecer o martírio e a perseguição aos cristãos, tempo de barbárie e injustiças para aqueles que seguem o amor, Jesus Cristo, e o imitam na prática, como afirma a famosa e Carta a Diogneto, quem persegue esses homens e mulheres, não sabem afirmar porque o fazem. Destes perseguidores podemos destacar Nero, que foi o primeiro Imperador Romano a declarar a perseguição aos cristão, incendiou Roma por diversão e outros interesses e culpou os cristãos em uma tentativa de enfraquecer a religião que apresentava a todos a liberdade em Deus. E não podemos é claro deixar de mencionar o mais sanguinário imperador no que tange a perseguição aos cristãos, Diocleciano (284-305). Ele assumiu o governo imperial muito abalado por desordens internas. Neste tempo o cristianismo estava muito difundido, contando entre 7 e 10 milhões de fiéis num total de 59 milhões de habitantes do Império; Prisca, a esposa de Diocleciano, e sua filha Valéria eram provavelmente favoráveis ao Evangelho, além de altos oficiais do exército e da corte. Em 304 um decreto imperial obrigava todos os cidadãos a sacrificar aos ídolos, o que provocou o derramamento de copioso sangue ou execuções em massa.

É com Constantino Magno que a perseguição oficial cessa, em 313 com o Edito de liberdade. Neste Edito, Constantino concede liberdade de culto aos cristãos restituindo até mesmo os bens que anteriormente haviam sido roubado dos cristãos. Muito podemos falar sobre este homem, mas uma coisa salta a nossa mente, a confusão. Ele supostamente se converte ao cristianismo, mas não se dá ao batismo. Prefere levar uma vida “fora” do cristianismo, com a intenção de ser batizado antes da morte para morrer sem pecado. Mas será que uma verdadeira conversão não o levaria imediatamente a pertencer ao corpo de Cristo como membro? Esse é um questionamento que não teremos respostas, mas somente suposições.

O sucessor de Constantino é Teodósio I, este imperador no ano de 380 declara o catolicismo, religião Oficial do Império. Agora teremos outros problemas internos na igreja. Se antes tínhamos, heresias que negavam o cristianismo e a perseguição àqueles que abraçavam a fé. Agora com o Império cristão, um problema é que mesmo aqueles sem uma verdadeira experiência com Cristo entram para a religião e isso nos leva ao problema de termos católicos de nascimento mas não de experiência.

Esse período rico da Igreja também é marcado pelo início do movimento monacal na Igreja. Destacamos São Paulo de Tebas, um eremita egípcio nascido aproximadamente no ano 228 na região da Tebaida, junto ao rio Nilo e faleceu no ano de 342. Foi objeto de uma hagiografia escrita por São Jerônimo e chamada “Vita Sancti Pauli primi eremitae” escrita durante a segunda metade do século IV.

O segundo personagem do movimento monacal é Santo Antônio Abade, foi um monge cristão, fundador do movimento eremítico principalmente pela obra de Santo Atanásio, apresentando como a figura de homem que cresce em santidade e se converte em modelo de cristão. Sua hagiografia possui elementos históricos e outros de caráter lendário; sabe-se que abandonou seus bens para levar uma existência de ermitão e que atendia várias comunidades monacais no Egito. Permanecendo eremita, possivelmente alcançou 105 anos de idade.

Como penhor desse movimento iniciado no silêncio, temos a gloriosa Ordem de São Bento (em latim: Ordo Sancti Benedicti), é a ordem religiosa, dedicada à contemplação, fundada por Bento de Núrsia, que segue a regra ditada por ele no início do século VI para a abadia de Montecassino. Bento de Núrsia contribuiu decisivamente para a evangelização cristã da Europa, da qual ele é o patrono. 

Voltamos um pouco ao século III, este período é marcado pelo início das heresias que negavam a divindade e humanidade de Cristo, ou ainda heresias trinitárias, para isto o Império unido à Igreja Romana, ou seja, ao Papa, convocam os primeiros concílio ecumênicos, com o objetivo de resolver definitivamente as heresias. Este tempo ainda é marcado pelo início das discussões sobre a primazia da Igreja Romana e da autoridade do papa em toda a cristandade. Essa discussão deve-se ao problema causado por Constantino ao mudar a sede do Império para a antiga Bizâncio, ou ainda Constantinopla. Até este momento a fé de toda a Igreja é que a sede da Igreja é onde está o túmulo de São Pedro. Mas agora, com a sede do Império no Oriente, esta parte da Igreja inicia uma nova pregação afirmando que a Sede da Igreja é onde está a Sede do Império, isso nega a vontade de Cristo expressa nos evangelhos de que São Pedro é a rocha. 

Essas afirmações provindas por parte da Igreja oriental e ainda as negações da autoridade de jurisdição do Papa no Oriente, terão muitos momentos fortes e fracos no primeiro milênio, mas, vai encontrar seu termo no grande cisma do ano de 1054. Neste ano infelizmente a cristandade está dividida. A túnica inconsútil de Cristo foi dividida e agora a Igreja do Ocidente tendo o Papa como Cristo visível e sucessor de São Pedro, a rocha da igreja, e a Igreja que está no Oriente, caminharam separadas, graças a ganancia de poder e privilégio, tudo isso para o escândalo de todos aqueles que amam a Deus a sua Igreja.

No século XIII personagens gloriosos aparecem na Igreja, dentre esses, destacamos São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão, fundadores das duas principais Ordens Mendicantes. Essas Ordens nascem de forma gloriosa em tempos difíceis para a Igreja. Nascem para mostrar ao mundo que é possível ser cristão autentico, mesmo o mundo negando os princípios da fé e do Evangelho. Vale destacar a atuação da Ordem dos Pregadores que corajosamente foram a todos os rincões da Europa pregando a verdadeira fé contra a heresia pauperrista e Cátara.

No século XIII ainda temos o fim do Império Ocidental iniciado pela Igreja com a Coração do Beato Carlos Magno. O Império alcançou seu termo com a deposição de Frederico II que agora, mesmo sendo cristão por batismo, perseguia a Igreja em muitas direções.

Outro tema interessante da história da Igreja, são as Cruzadas, deste capítulo da história, trataremos de forma resumida. Apresentando a primeira e única causa principal: reconquistar das mãos dos infiéis os lugares santos da Palestina. Depois de 637 era, toleradas as peregrinações dos cristãos aos lugares santos. Mas, na metade do século XI, tornara-se intolerável, as Igrejas Católicas eram destruídas, os romeiros maltratados e assassinados.

Em 1095, no sínodo de Clermont, o Papa Urbano II convidou os Bispos e cavaleiros a salvarem os santos lugares. Houveram portanto 6 grandes cruzadas. Como resultados temos o fracasso de todas, é claro sob o ponto de vista religioso, pois, o fim era a libertação da Terra Santa. Mas as cruzadas retardam a invasão dos turcos na Europa (Vitória de Lepanto); impediram a destruição completa da civilização cristã na Ásia menor e reconduziram muitos Maronitas e Armênios à união Católica: evidenciaram o prestígio dos Papas e animaram o espírito de fé.

Outro capítulo que vale a pena descrevermos ao  menos brevemente é a Instituição do Tribunal de Inquisição. Precisamos notar que, inquisição do Latim: inquirire, significa qualquer modo de proceder contra os hereges. Nesse sentido a inquisição existiu desde o começo do cristianismo, apresentando várias fases na história da Igreja. No século XIII inquisição se apresentou como Tribunal de Inquisição, Instituído pelo Papa Gregório IX (1227-1241), precisamos saber que houveram dois tribunais respectivamente:

1- Tribunal de inquisição – Europeia – ligado ao Papa, neste, a Igreja dizia ao pecador seu pecado ou heresia, dava direito ao réu de defesa mas no final o pecado deveria ser reparado. Caso o herege não se retrata-se era entregue ao monarca que tratava o pecado ou heresia como crime de lesa majestade.

2- Tribunal de inquisição – Espanhola, este não esteve ligado à igreja, o monarca julgava e aplicava a lei, neste sim temos muitos abusos e escândalos. Com isso já sabemos que o aprofundamento desse tema deve ser em separado.

Os século XIV e XV, não acrescentaram muito à história da Igreja. Mas foi um período triste para a humanidade, quase a experiência que estamos vivendo em nosso contexto. Nos séculos supracitados a peste negra dizimou a Europa.

A peste negra tem sua origem no continente asiático, precisamente na China. Sua chegada à Europa está relacionada às caravanas de comércio que vinham da Ásia através do Mar Mediterrâneo e aportavam nas cidades costeiras europeias, como Veneza e Gênova. Calcula-se que cerca de um terço da população europeia tenha sido dizimada por conta da peste.

A propagação da doença, inicialmente, deu-se por meio de ratos e, principalmente, pulgas infectados com o bacilo, que acabava sendo transmitido às pessoas quando essas eram picadas pelas pulgas – em cujo sistema digestivo a bactéria da peste multiplicava-se. Num estágio mais avançado, a doença começou a se propagar por via aérea, por meio de espirros e gotículas. E como ação da igreja, além de toda a coragem dos religiosos, em diminuir o sofrimento dos doentes temos a criação da segunda parte da Ave-Maria.

No século XV nos deparamos com uma situação triste em toda a Igreja, não podemos esquecer que a santidade, a busca de virtude e a verdadeira fé sempre foram presentes na Igreja, mas neste século é mais forte e visível em terras ocidentais a falta de virtude. Este tempo favorece o início da grande reforma da Igreja, iniciando pelo 16º Concílio Ecumênico na Cidade de Constança, este tempo reformista vai se estender até o século XVI de forma mais objetiva até o 19º Concílio Ecumênico, realizado em Trento.  Ao todo foram 4 grandes Concílios, que buscaram com muita dificuldade, tirar a cristandade do pecado conduzindo os cristãos a verdadeira fé em Cristo, que se realiza plenamente na Igreja Católica.

O século XVI ainda, é marcado pela grande tristeza da divisão do rebanho de Cristo, que é sempre um escândalo para aqueles que amam a Deus e trabalham pelo seu reino.

Aparece na história da Igreja o Frade Agostiniano Martinho Lutero, que apresenta suas teses com uma nova eclesiologia. Essa eclesiologia não leva em consideração o caráter sacramental da Igreja, sua visibilidade e sua instituição pelo próprio Cristo. Além de negar o cânon bíblico, dito canônico, formado pelos primeiros cristãos, afirma ainda que, os Concílios Ecumênicos, que são realmente uma marca de verdade e de Sã doutrina na Igreja, erraram, ao condenar aqueles que afirmavam que a alma humana é mortal. Além de afirmações como: somente a fé, somente a graça, somente Cristo, somente a Deus Glória e a pior de todas que não encontramos fundamento em nada, somente a escritura. Para Martinho Lutero, Deus não nos faz participantes de sua glória, que a fé cristã não necessita de obras, afirmação essa provinda de sua formação filosófica nominalista que é regida pela consciência de que tudo é abstrato e subjetivo.

Com ele vai se iniciar o movimento protestante que nunca alcançou seu termo, pois, a cada dia centenas de denominações são criadas no mundo, com muita contradição e erros de fé, de fato isso é um escândalo no cristianismo.

Na Idade Moderna temos a Revolução Francesa que muda o ritmo do mundo e inicia uma mudança política em todo o ocidente.

A realização do Concílio Vaticano II se faz após a segunda Guerra Mundial, na qual destacamos a generosa e silenciosa participação do Papa Pio XII, na defesa dos judeus por toda a Europa.

O 21º Concílio, apresenta ares novos para a Igreja, ressalta uma Igreja como Luz dos povos e convida todos a santidade. Essa é sem dúvida a marca deste Concílio. A consciência da Igreja como aquela que reflete a luz de Cristo no Mundo é magnifica e vai ser o caminho para a eclesiologia do mundo.

Assim chegamos a pensar a eclesiologia da América Latina. A busca pela consciência de uma Igreja Latino Americana, já dava seus primeiros passos ainda antes da realização do Concílio Vaticano II.  A primeira conferência Latino Americana, foi realizada no Rio de Janeiro em 1955, com muita novidade, como o reconhecimento missionário no continente, mas ficou escondida pela realização do 21º Concílio.

Para receber este Concílio em nosso continente, foi realizada a segunda conferência, agora na cidade de Medellín em 1968. Esta buscou a recepção do Concílio Vaticano II à realidade da América Latina, principalmente os temas sociais, destacando a espiritualidade encarnada.

Para responder ao clamor eclesiológico e pastoral da América Latina, aconteceu a terceira conferência, agora em Puebla no ano de 1979, seus temas giraram em torno do documento pontifício Evangelli Nuntiandi, e adotamos como postura na evangelização do continente as duas práticas: comunhão e participação.

Não podemos esquecer o centro da Igreja, Jesus Cristo. Nosso Senhor foi o centro da discussão da quarta conferência Latino Americana realizada em Santo Domingo, no ano de 1992 e o lema não poderia ser melhor, Jesus Cristo ganhou um novo tempo de anuncio neste continente, lembrando a fonte e o objetivo de nossa fé, Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.

A última conferência, até o momento, que se realizou em nosso continente, foi na bela e Mariana cidade de Aparecida, no ano de 2007. De uma forma podemos dizer que esta resume e une as conferencias passadas, apresenta o Cristão Católico como discípulo e missionário de Jesus Cristo, para que nossos povos nele tenham vida e colocou a Igreja em estado permanente de missão.

A semana intensiva de aulas foi encerrada com a reflexão da proposta eclesiológica do Papa Francisco. Nosso Papa Latino Americano, nos lembra carinhosamente que o maior poder deixado por Cristo aos seus é o serviço. Assim, cada pessoa adquire um lugar especial na Igreja, com as suas particularidades, as suas necessidades, os seus pecados e as suas virtudes.  Neste pensamento do serviço, cada Cristão Católico deve assumir a acolhida como se todos fossem o próprio Cristo.

Fizemos um caminho pela história da Igreja e voltamos as questões iniciais, o serviço e a comunhão, ações próprias da Trindade que rege e sustenta todo o universo e ilumina a Igreja ao longo de sua história.

Por: Prof. Diac. André Phillipe Pereira

 
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