SUBIU AO MONTE E CHAMOU OS QUE ELE QUIS. E FORAM A ELE (Mc 3,13)

Artigo 014

A vida consagrada “imita mais de perto, e perpetuamente representa na Igreja a forma de vida que Jesus, supremo consagrado e missionário do Pai para o seu Reino, abraçou e propôs aos discípulos que O seguiam” (LG n. 22).

O texto de Marcos 3,13 é indispensável para refletirmos sobre a caminhada da vida consagrada através dos tempos. A Teologia dos Estados de Vida, nos apresenta a sede do homem em busca de Deus. Pessoas inquietas que desejavam ir além do que viam e viviam, iniciaram uma marcha para o deserto, para a solidão, com o objetivo de “deixar o mundo” e dedicar-se totalmente ao Senhor. A origem de todas as formas de Vida Consagrada está em Cristo, no seu apelo para que o reino de Deus se espalhasse. É bom levarmos em conta a nossa história, a herança que recebemos.

A “fuga mundis” que deu origem ao monacato e à vida eremítica por volta dos anos 250-270 com Santo Antão, foi marcada pelo transcendente intuito de seguir Cristo na entrega total, na radicalidade da fé, deixando bens e famílias, refugiando-se na solidão física para viver a santidade.  Em seguida surge a vida cenobítica com São Pacômio (286-386), não mais na solidão, mas em comunidade, embora, os mosteiros estivessem retirados da zona urbana. São Basílio funda sua comunidade próxima à cidade para favorecer as relações interpessoais. Santo Agostinho acreditava que a prática comum devia estar fundada na radicalidade e seus membros deveriam beber das fontes da Igreja primitiva, ter um só coração e uma só alma. São Bento forma sua comunidade em um ambiente familiar (abadia) cuidado por um pai (abade), fundando sua regra na oração e no trabalho, pilares para a vivência evangélica. No segundo milênio surgem as ordens mendicantes, pois a vida monástica já não correspondia ao novo tempo. O religioso agora passa a estar próximo das pessoas e desenvolve seu apostolado diretamente nas comunidades eclesiais. Nascem então os conventos e o que condiciona a vida comunitária é a missão pastoral. No século XIV, com o Renascimento, destacam-se os Clérigos Regulares ou Comunidades Apostólicas que estruturam sua vida no modelo itinerante de Jesus. Nem sempre estarão juntos num mesmo lugar, mas unidos sim, pela mesma missão. Neste modelo desaparecem as Regras e se elaboram as Constituições; a comunidade é o lugar onde se estruturam os projetos. Do século XVII ao XX, temos as Sociedades de Vida Apostólica, as Congregações clericais de votos simples e as Congregações laicais de votos simples. Estão em vistas da renovação da vida clerical, como resposta aos novos desafios missionários e eclesiais. Com isto, após o Concílio Vaticano II, houve uma explosão de novas formas de vida religiosa que tentam responder, sob o impulso do Espírito Santo, aos desafios do tempo presente.

Considero que a origem de tudo está na formação da primeira comunidade de discípulos e aqui cabe a centralidade do texto de Mc 3,13. Nos versículos anteriores, Jesus estava curando, havia reunido uma multidão, muitos estavam com ele, admirados como sempre dos seus ensinamentos e dos milagres. Mas, apenas 12 são escolhidos para o ministério. Doze homens simples, sem muita instrução, trabalhadores, alguns casados e certamente com filhos. O que Jesus viu neles? Quando aqueles olhares se cruzaram e os corações começaram a arder, algo muito especial os esperava. Deixar tudo e seguir um desconhecido é atitude de muita confiança. E assim o fizeram, depositaram tudo no seguimento de Cristo.

A importância de cada um daqueles homens, está no fato de almejarem algo novo para suas vidas. Jesus é o Novo, o mais atrativo. Eles entendem o convite no caminho com o Mestre. Mas, Jesus poderia ter escolhido outros. Não sabemos os critérios que o levou a esta seleção, sabemos apenas que “chamou os que Ele quis”. Desse evento, nasce a Vida Consagrada com suas vastas estruturas guiadas pelo carisma primeiro da comunidade apostólica. Do coração amoroso de Jesus, vem um convite para deixar tudo e experimentar a abundância de dons e uma vida livre, plena, marcada pela Boa Nova, organizada pelo Espírito de Deus.

Através de nossos fundadores e fundadoras, a comunidade de Cristo vai se formando. Da mesma maneira que chamou aqueles imperfeitos, continua precisando de nós para que a obra não acabe. Somos a força do Espírito que através dos carismas particulares, revelam a essência do Evangelho e o desejo de Cristo de atrair todos para o Pai, somos a vinha de Cristo. A consagração na sua totalidade se fundamenta nas características daquela primeira e enamorada comunidade. Estavam apaixonados pelo Mestre, seguiram um ideal, transfiguraram sua mentalidade através das catequeses recebidas, sentiram as dores do Crucificado, colocaram seus medos na Ressurreição, morreram por amor conscientes de que seu único bem era Cristo.

Precisamos como consagrados, voltar às origens de nosso processo vocacional. O Senhor nos escolheu porque ele quis, sabendo das nossas misérias e das potencialidades que trazemos. A resposta é nossa, com responsabilidade e dedicação, com liberdade e amor. O que atraiu aqueles apóstolos deve ser também o que nos atrai nos dias de hoje. Afinal, o convite é o mesmo, a missão é a mesma, o que muda é o tempo e o espaço. Responder positivamente ao pedido de Jesus não é fácil, envolve renúncia de tudo o que nos prende e decisão firme para não abandonar o Senhor no percurso.

A primeira comunidade aos poucos, foi tomando conhecimento de que o caminho a seguir era árduo. Assim aconteceu com os que iniciaram nossos institutos. A fidelidade está no envolvimento, na luta diária, concreta, nas contradições. Dores e alegrias estão na raiz do seguimento de Cristo.    

O Papa João Paulo II no documento Vita Consecrata n. 104, assim escreve: “Diversos são aqueles que hoje se interrogam perplexos: Por que a vida consagrada? Por que abraçar este gênero de vida, quando existem tantas urgências, no âmbito da assistência e mesmo da evangelização, às quais se pode responder igualmente sem assumir os compromissos peculiares da vida consagrada? Porventura, não é a vida consagrada uma espécie de ‘desperdício’ de energias humanas que podiam ser utilizadas, segundo critérios de eficiência, para um bem maior da humanidade e da Igreja?”. Esse questionamento é atual e a resposta deve ser buscada no Mar da Galiléia, quando seduzidos pelo Cristo, deixaram tudo e o seguiram. 

Que seria do mundo sem a Vida Religiosa? Que seria de nós, se negássemos o chamado de Cristo? Continuemos loucos e apaixonados por Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Aqui está a força para não deixar a comunidade de Cristo morrer.

Paz e bênçãos!

Pe. Nilton Cesar Boni cmf
Formador do Teologado Claretiano – Curitiba/PR

 
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