UMA VEZ PASSADA A PANDEMIA VAMOS QUERER UMA IGREJA DE DRIVE-THRU?

Artigo 026

A pandemia tem mostrado escancaradamente a grande distância entre ser igreja e viver como Igreja. Todos nos sentimos agradecidos pelos imensos números de visualizações e participações “on line”; mas esquecemos que já faz muito tempo que um bom número de nossos fieis não se sentem parte e membros da Igreja. Massivas romarias, massivos encontros de católicos em volta de Santuários e Santos; mas uma desagregação total. O ser Igreja para o nosso povo por vezes reduzida a uma ocasional presença nas missas dominicais agora se mantem a traves das LIVE e dos Insta da vida. O trabalho pastoral, a experiência do encontro, a evangelização e tantas outras experiências que poderiam enriquecer o nosso dia a dia parecem cada vez mais um adendo que poucos querem assumir.

Quantos cultos e quantas celebrações viraram shows de uma Igreja que nunca existiu, mas que se manteve por longos anos e décadas e sobre a qual a comunidade não existia. Verdadeira contravenção e falso período de “aumento de fieis”. A figura de hospital de campanha utilizada pelo Papa Francisco é mais do que atual; o mesmo Bento XVI quando prefeito da Congregação para a fé o diz numa entrevista: “A raiz de todos os problemas pastorais é, sem dúvida, a perda da capacidade de percepção da verdade, que caminha lado a lado com cegueira ante a realidade de Deus. E é digno notar como interagem aqui o orgulho e a falsa humildade. Primeiro é o orgulho que motiva o homem a imitar Deus, a se crer capaz de entender os problemas do mundo e construí-lo de novo. Na mesma medida surge a falsa modéstia, que sustenta a ideia de que é absolutamente impossível que Deus se preocupe com os homens e que chegue a falar com eles”. (RATZINGER, J. “A Igreja no mundo moderno”. 1992).

O individualismo recalcitrante no ambiente religioso leva a esta falsa humildade por parte de muitos de nós. Uma Igreja que é um hospital e que custa a reconhecer que ela não é mais uma referência para o mundo pelo menos no que um dia foi: mestra da fé. Uma Igreja que deve se recompor não das cinzas como a mítica imagem do Fenix. Ela se recompõe a luz da criatividade inspirada pelo Espirito; o mesmo que fez com que os discípulos e discípulas dos primeiros anos deixassem a timidez e o medo e se lançassem corajosamente a anunciar a Boa Nova do Reino. Neste sentido tanto Vattimo quanto Guardini coincidem na sua visão do mundo moderno e do seu fim: “um mundo dominado pelo medo de si e da descoberta de outros mundos reais e não imaginários”. (VATTIMO, G; GUARDINI, R; O fim dos tempos modernos, 112; The End of Modernity: Nihilism and Hermeneutics in Postmodern Culture, 198). 

Esse mesmo individualismo não nos permite enxergar a pastoral de conjunto, o princípio de unidade e comunhão e por vezes nos deixa reduzidos aos nossos gostos pessoais.

Durante todo este tempo da pandemia um elemento que tem-me chamado fortemente a atenção é a boa vontade de muitos Presbíteros, Seminaristas e Bispos. Um desejo ardente de que o povo não perca as celebrações. Eu mesmo na catedral de onde sou pároco; tenho tentado manter contato com os fiéis que fazem parte desta comunidade; sintonizados nas missas, nas LIVE, nos instagram e etc. Com tudo vejo com exagero situações como aquelas que muitos chamaram de “Drive Thru” para a comunhão, para as confissões, para os sacramentos. Lembrei de quando ainda em 1980 fui pela primeira vez nos Estados Unidos de América e chamou-me profundamente a atenção este sistema; então como todo um garoto Latino Americano de 10 anos de idade perguntei ao “Pai” americano do intercambio “What its That”... ele contou-me a história: O ano era 1931. Royce Hailey acabara de ser promovido a gerente de uma lanchonete tradicional de Dallas, no Texas, a Pig Stands. Aos 21 anos, mesmo sem saber dirigir, seu sonho era o de todo jovem americano da época: comprar um carro. Mas os Estados Unidos viviam os anos duros da recessão, depois da quebra da bolsa em 1929, e o Pig Stands estava às moscas. Os ombros do jovem gerente doíam pela pesada responsabilidade de fazer que os clientes voltassem a ocupar as mesas do restaurante.

Um dia, ouviu de seu patrão uma máxima inspiradora: “As pessoas que têm carro são tão preguiçosas que não querem sair dele nem para comer”. Ele percebeu que era esse tipo de gente que precisava agradar. 

Pessoas preguiçosas... cristãos preguiçosos. Ai está o maior de todos os problemas. Uma vez passada a pandemia vamos querer uma Igreja drive thru. Uma Igreja acomodada, sem exigências, sem desafios, uma Igreja como dizia o bispo Francês Jacques Gaillot; “Uma Igreja que não serve, não serve para nada”. 

Este Bispo Frances na década dos anos 90 foi o primeiro a trabalhar com os meios de comunicação da época e uma incipiente internet. Se arriscou a ter uma diocese “satelital” e descobriu um caminho que muitos de nós hoje só utilizamos para nos promover nos esquecendo do Anuncio do Evangelho e dos grandes riscos que traz anunciar a Boa Nova. Assim o escreveu na obra a qual me referi anteriormente: “¿Cómo explicar que el «ministerio fronterizo» no es ajeno al ministerio que ejerzo habitualmente en el seno de la comunidad creyente? Los derechos humanos no se pueden compartimentar. La solidaridad no tiene límites. El evangelio empuja hacia otras riberas. ¿No es una tensión necesaria estar situado a la vez en la avanzadilla y en el corazón de la comunidad
cristiana?”. ( GAILLOT, J. 42).

O resgate então do humano é mais do que urgente na igreja. O humano como nos é apresentado no meio a tantas pandemias atuais precisa não só de uma antropologia solida se não também daquilo que Guardini chama de “Expressão do ser concreto”. O hábito e a rotina foram tomando corpo dentro da Igreja ao ponto de que sempre preparávamos nossas agendas, cheias de eventos e esquecidas do humano e muitas vezes até do Divino. O ser concreto na Igreja é o povo de Deus em relação ao seu Deus; não a suas atividades; o aquilo que é pior aos seus próprios interesses.

“Guardini compreende a oposição como polaridade, que atravessa o complexo de quanto é vivo, ou seja, forma o concreto (teologicamente falando: o criatural). Deste modo, a oposição não é uma característica no vivente, mas sim o vivente mesmo. Com a idéia da oposição parece encontrado o princípio de estruturação e ação de todo real, o «fenômeno original» da vida. Por conseguinte, para Guardini tudo depende de entender o que foi encontrado com a máxima clareza possível: ou seja, não deixando a oposição degenerar em contradição, o que provocaria uma dilaceração das forças”. (GUARDINI, R. https://institutumsapientiae.files.wordpress.com/2013/02/sc-2009-04.pdf).

Este mundo concreto e este ser concreto foi desaparecendo no dialogo Eclesial; nos tornamos agentes de pastoral, ministros ordinários e extraordinários; fomos conhecidos como animadores de comunidades mas no fundo o ser Igreja entrou em questão.

Este ao meu ver um dos resultados que uma leitura serena e acurada dos tempos que vivemos pode-nos levar. Uma Igreja que está chamada a olhar o seu ser concreto no mundo; a luz do que poderíamos chamar “oposição”; tal vez aqui se encontra a senha que abrirá a porta para compreendermos o valor do número (9) da Lumen Gentium quando afirma que a Igreja é um sacramento. Já Henri De Lubac; teria apresentado esta ideia ao dizer que “aquilo que é sacramental não é um entremeio, mas sim um mediador; não é algo que isola, uma parte da outra, mas que quer ligar os dois termos. Não coloca uma distância entre eles; pelo contrário, os une ao fazer presente o que ele evoca”. (De LUBAC, H. The Splendor of the Church, 202). 


Esta eclesiologia nos envia diretamente para uma nova caminhada. Se chame de post COVID ou não; a realidade possui após este primeiro semestre do ano de 2020 uma outra tonalidade cromática. Os homens e as mulheres do mundo inteiro nos vimos afetados por esta situação e continuaremos a nos ver envolvidos nesta realidade. 

A igreja no Brasil e no mundo é ciente de que esta mudança vai trazer grandes avanços para a evangelização.
O mesmo cardeal de Lubac o diz nas suas meditações sobre a Igreja: “A  Igreja está no meio do mundo; a través da sua presença. Ela sempre se dirige sobre uma inquietação que parece não ter cura: ser testemunha de Jesus, nos caminhos do mundo”. ( DE LUBAC, H. Méditation sur l’église. 159). 

Pe. Rafael Solano. Presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. Professor de Teologia Moral e Bioética da PUC -PR. Campus Londrina e Curitiba. PhD. Teologia Moral. 

 
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