VIDA CONSAGRADA: ESTAR COM JESUS NO COTIDIANO

Artigo 021

"Durante a sua vida terrena, o Senhor Jesus chamou aqueles que quis, para andarem com Ele e ensiná-los a viver, segundo o seu exemplo, para o Pai e para a missão d'Ele recebida (cf. Mc 3,13-15). Inaugurava assim aquela nova família da qual haveriam de fazer parte, ao longo dos séculos, quantos estivessem prontos a 'cumprir a vontade de Deus' (cf. Mc 3,33-35)” (VC 1).

"Ao passar pela beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e seu irmão André; estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: 'Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens.' Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram Jesus. Caminhando mais um pouco, Jesus viu Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes. Jesus logo os chamou. E eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partiram, seguindo Jesus" (Mc 1,16-20).

“Depois, subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram a ele. Designou doze dentre eles para ficar em sua companhia. Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15).

Cristo se aproxima das pessoas no cotidiano da vida e as chama. A vocação é Palavra de Deus pronunciada à pessoa. A resposta dos discípulos é pronta e obediente: “Deixaram tudo e o seguiram”.

Após escutarem a Palavra de Jesus, os discípulos respondem colocando-se ao seguimento dele. Todos eles seguiam o mesmo Jesus que os chamou. Por isso, a comunidade dos discípulos é cristocêntrica, tem Cristo como centro. É em torno dele que os discípulos estavam reunidos.

Cristo os chamou para: estarem com Ele; aprenderem com Ele; continuarem a Sua missão. Eles sentiam-se chamados; estavam com Ele; partilhavam sua existência, depois sua missão e seu destino. O relacionamento daquela comunidade era muito simples. Tudo baseava-se numa tríplice dimensão do diálogo:

- Diálogo pessoal entre Jesus e cada um: Jesus chama - o discípulo responde. Jesus é o Bom Pastor que conhece cada ovelha, cada discípulo, que conhece a sua voz e a ovelha (discípulo) conhece a voz do Pastor (Jesus).

- Diálogo entre Jesus e o grupo: Jesus tinha um modo especial de relacionar-se com o grupo. Convivia integralmente com eles. Chamava-os para um lugar especial, onde rezavam juntos, onde eles faziam perguntas sobre o que não entendiam, onde Jesus ensinava-lhes aquilo que dizia em parábolas para o povo.

- Diálogo do grupo entre si: Os discípulos conversavam  e partilhavam entre si.

A comunidade de Jesus também teve dificuldades, momentos tensos, por exemplo, uns queriam ser mais que outros, queriam o primeiro lugar, queriam vingar-se de quem os tratava mal, Pedro chegou a negar Jesus, Judas o traiu, dispersaram-se quando Jesus foi preso. Mas, sempre que tinha um momento de tensão entre eles, Jesus aproveitava para lhes dar uma lição a partir daquela situação.

Quando prenderam Jesus, o tiraram do meio dos discípulos, a comunidade se dispersou. Perderam o centro de atração: Jesus Cristo. A mesma comunidade se reuniu e se reconstituiu quando Jesus se fez presente de novo no meio deles, após a ressurreição.

Esta mesma comunidade se fortificou e se expandiu quando recebeu, acolheu e reconheceu a presença do Espírito Santo a partir de Pentecostes.

“Depois da ascensão, mercê do dom do Espírito, constituiu-se ao redor dos Apóstolos uma comunidade fraterna, unida no louvor de Deus e por uma concreta experiência de comunhão (cf. At 2,42-47; 4,32-35). A vida desta comunidade e mais ainda a experiência de plena partilha com Cristo, vivida pelos Doze, foram constantemente o modelo em que a Igreja se inspirou, quando quis reviver o fervor das origens e retomar, com novo vigor evangélico, o seu caminho na história"(VC 1).

Hoje, na Igreja, somos nós estas pessoas chamadas que, dóceis ao chamamento do Pai e à moção do Espírito, escolhemos este caminho de especial seguimento de Cristo, para nos dedicarmos a Ele de coração 'indiviso'  Também nós deixamos tudo, como os Apóstolos, para estar com Cristo e colocar-se, como Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos. Chamados a manifestar o mistério e a missão da Igreja, e concorrer para renovar a sociedade (cf. VC 1). 

Nós somos os discípulos/missionários de Jesus hoje. Cada um de nós sente-se chamado por Cristo para estar aqui. É em nome dele, por força da sua Palavra, que estamos aqui.

Cristo nos chama para estarmos com Ele: oração, vida comunitária, carisma comum...; aprendermos com Ele: formação como conversão, caminho de cristificação da existência toda, vida cristiforme; continuarmos a sua missão: missão do Instituto, apostolado na Igreja e para a Igreja..

O modelo de comunidade permanece hoje aquele de Jesus com seus discípulos e o nosso relacionamento baseia-se no relacionamento da comunidade entre Jesus e seus discípulos:

- Diálogo pessoal entre Jesus e cada um: nosso sentir a vocação. Nosso estar aqui. Nossa oração pessoal, frequência aos sacramentos, leitura e vivência da Palavra de Deus, fidelidade ao sim pessoal.

- Diálogo entre Jesus e o grupo: convivência em nome de Jesus, todos sentindo-nos chamados, convocados. Nosso carisma comunitário. Nossa oração comunitária. Nossas celebrações. Nossos retiros.

- Diálogo do grupo entre si: Nossa convivência. Nosso objetivo comum. O diálogo entre nós. O perdão, a correção fraterna, o suportar-se mutuamente, as sugestões recíprocas, o colocar em comum o que somos e o que temos, nossas recreações... a comunhão de vida, koinonia.

Como os discípulos, somos humanos. Também entre nós poderão haver dificuldades, quedas, etc. Mas, o importante é, como os discípulos, saber sempre tirar uma lição de vida ouvindo a Palavra de Cristo.

A exemplo da comunidade de Jesus, precisamos ter o cuidado para nunca perder o Cristo do centro da comunidade. Pois, se todos somos chamados por Ele, tirando-o do centro, a comunidade esfria, se dissolve, morre, perde o seu objetivo, o seu ser. A comunidade é em Cristo. A comunidade religiosa é cristocêntrica. Infelizmente, existem tantos modos de tirar Cristo do centro da comunidade!

Somos a continuação hoje desta comunidade de Jesus e, como ela, precisamos acolher, reconhecer e deixar-se guiar pela presença do Espírito que recebemos. Cada um de nós recebeu o Espírito em nosso batismo/crisma e passamos a fazer parte da comunidade eclesial, dentro da qual, através dos Fundadores, recebemos do Espírito um carisma especial, o carisma do Instituto.

Nossa comunidade precisa ser sempre cristocêntrica e pneumatológica. Assim conseguiremos ser aquilo que a Igreja nos pede: sinal visível, rastros da Trindade. Mas o conseguiremos enquanto reconhecermos que a nossa vocação é iniciativa divina, que vem da vontade do Pai, que se realiza no seguimento radical de Jesus Cristo, iluminados, guiados, pelo Espírito Santo.

A vontade de amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças; o desejo de responder ao chamado de Jesus a deixar tudo para segui-lo, a renegar a si mesmo e a tomar a própria cruz a cada dia; o mandamento do amor recíproco; o exemplo dos apóstolos e dos primeiros cristãos de Jerusalém: são estas as referências evangélicas mais comuns que inspiraram o monacato e que precisam estar vivas e presentes em nossas comunidades. (CIARDI, F., Esperti di Comunioni - Pretesa e realtà della vita religiosa. San Paolo, Milano, 1999, p. 31).

Neste tempo de pandemia, quando permanecemos mais isolados em nossas comunidades, temos uma oportunidade maior de estar com Cristo, aprender mais na convivência com Ele, a fim de, com a nossa vida, presença e testemunho, podermos torná-lo mais conhecido a amado aos nos encontrarmos novamente com todo o povo de Deus após a pandemia.
Pe. Antônio Royk Sobrinho, OSBM

 
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