VIDA CONSAGRADA: ITINERANTE ENTRE TENDAS.

Artigo 020


Nos encontramos neste tempo Kairós – que marca a graça do momento presente, entre esperanças que sustentam o ânimo e programações aparentemente frustradas e esquecidas nas gavetas, substituídas pelo emergencial desta fase, ainda com os olhares embaçados e a mente dando voltas em perguntas sem grandes respostas convincentes, assim estamos confrontamos com a linguagem diária que entrou como um slogam universal: e o COVID 19? O que alterou em nossa rotina comunitária? Nas atividades missionárias, nas programações estabelecidas e nos relacionamentos distanciados fisicamente?

Em que circunstâncias nossos passos tomaram novos rumos? Penso naquelas multidões que seguiam Jesus e que muitas vezes depararam com a mudança de rota também; bastava alguém chegar e suplicar a ajuda do Mestre e Ele, imediatamente redirecionava os passos, as atitudes e o foco de atenção.

Frente ao que vivemos agora, por certo não será mais como antes nossa vida e serviço apostólico e é bom que não seja! A mudança precisa ser aceita, acolhida e tratada como um marco divisor em nossa forma de pensar os espaços que ocupamos na Igreja e na sociedade. Não podemos pretender resultados diferentes se insistimos com os mesmos métodos! Muitos deles ficaram ultrapassados em tão curto tempo nesta pandemia, até sem assembleias e consultas prévias.

O vírus sorrateiro desestabilizou os métodos de ensino, de evangelização e até nossas seguranças pessoais, nossa economia e ainda a forma de relacionamentos, que passaram a exigir maior esforço, com atenção redobrada de uns pelos outros nas comunidades e com aqueles que cuidamos nos círculos externos, afinal, este mal invisível é um elemento assombroso que nos circunda e ameaça. 

Impressionante como em pouco tempo para manter a qualidade em nossas Instituições sócio educacionais, foi preciso dar passos ágeis e decididos em novos aprendizados que resultam o alcance dos objetivos também eficazes o que nos desafia a mensurar o investimento presencial por vezes marcado por uma rotina enfadonha, quase imutável! E porque não pensamos que a criatividade é água borbulhante sempre bem vinda em todas as circunstâncias?

Evangelizar pelas mídias e redes sociais já foram bem criticadas, consideradas até um absurdo quando nossos jovens acreditavam que poderiam nos ajudar a avançar na propagação da Fé e do Carisma, ou se dedicavam assiduamente na descoberta de recursos que a princípio nos assustavam pela sedução que poderia ocorrer, e é claro que toda a prudência no uso destes meios é sempre necessária, porém, eis-nos valorizando a revolução tecnológica que veicula o que de melhor temos a oferecer na missão, sem a qual como faríamos para ajudar nossos interlocutores no aconselhamento, orientação espiritual e os fiéis que acompanhamos nas celebrações? 

E fomos reaprendendo ainda a cultivar nossa espiritualidade de muitas e novas formas, afinal quantas comunidades religiosas neste vasto Paraná, celebram a Eucaristia diária presencial? Poucos privilegiados com certeza! Mas, entre nós está o Senhor sacramentado a quem adoramos, comungamos e que nos permite ainda estar em situação diferente de muitos leigos que sequer o recebem sacramentalmente a meses, o que para eles também era rotina diária. Aprendemos a revisitar nossos costumeiros rituais e avaliar o grau da sede com que sempre fizemos ou deixamos de fazer o estabelecido em nossas comunidades. É possível que nos deparamos surpreendidos com motivações pessoais em baixa, anêmicas ou que apenas aconteciam porque estabelecidas regularmente.

Quantas oportunidades temos agora para ressignificar nossas tradições, costumes, programas e projetos pessoais, comunitários e congregacionais! Como não sair desta situação revitalizadas/os? Repito: não podemos pretender resultados melhores seguindo os mesmos padrões costumeiros.

Somos itinerantes entre tendas históricas e circunstanciais da vida! Aprendemos que a locomoção é parte integrante e inerente a nossa vocação; a própria Vida Contemplativa, se não é itinerante geograficamente o é em força de sua vocação profética acompanhando os sinais dos tempos, com seus desafios e exigências e o fazem pela sensibilidade missionária na oração e no aconselhamento tão necessário aos tempos atuais.

As Congregações apostólicas e missionárias por sua origem e fim, são chamadas a avançar destemidas rumos aos novos paradigmas existenciais, pois se nunca estivemos tão distanciados fisicamente do povo a quem servimos, também é real que estamos frente as melhores oportunidades de aproximação espiritual e em condições de usar a criatividade do Evangelho descobrindo formas solidárias para partilhar um pouco do muito que temos e de servir sob novas formas; basta olhar ao nosso redor se as obras coordenadas por Congregações necessitam da soma de nossa ajuda fraterna. Eis o tempo propício para estabelecer as tão almejadas redes e parcerias que podem acontecer no simples escondimento do serviço cristão.

Seria um descaso ao Evangelho e às oportunidades presentes nos resguardarmos na cômoda desculpa do isolamento social! Podemos realizar a missão de muitas formas e com a eficácia da semente de mostarda, do punhadinho de sal e da chama que fumega sem apagar. Afinal em nossa tenda dos ricos e diversos Carismas está Jesus, aquele que aposta em nosso potencial, que nos chama continuamente nos desafios de cada época e não nos arquiva em tempo de pandemia, mas nos quer atuantes consigo, abertos à esperança que não decepciona e promovedores de tempos novos! Os tempos que aguardamos sejam de tendas provisórias e instáveis, muito acolhedoras da multidão que já vive os efeitos drásticos desta pandemia: solidão, depressão, pânico, desesperança, luto, insegurança e outros sintomas mais.

A tudo isso o Papa Francisco chama de periferias existenciais e convoca a Igreja a colocar-se como sentinela em estado permanente de missão. A urgência é atual, não pode ser um projeto piloto pós pandemia! Agora as pessoas precisam de nós consagradas e consagrados do Senhor! Nossa vitalidade espiritual alcance, conforte, ajude a sustentar os irmãos e irmãs arrefecidos. Coloquemo-nos inteiramente ao dispor do Senhor, suplicando que nossa energia seja direcionada generosamente a quem precisar. Confiemos! Ele nos orienta a alargar as tendas, mas para isso é preciso vencer as fortalezas que nos protegem ou até aprisionam. A maior delas é a da mente acomodada ou da autorreferencialidade.

Acompanha-nos neste itinerário de discernimento e encorajamento a solidária Maria, Mãe de Jesus e da Igreja! Como catequista da esperança no cenáculo com os discípulos missionários do Filho Jesus, ela nos aponta os meios e as formas para respondermos às urgências deste tempo, com o melhor de que somos capazes de ser e servir! E rezemos confiantes pelo fim da pandemia mundial.

Ir. Neiva Maria Fiorentin – Missionária Claretiana

 
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